Fiquei rodando o dentinho do isqueiro umas vinte vezes na frente do fogão, sem gás nenhum lá dentro, esperando a faísca pegar. Tem sofrimento que não permanece porque a situação é complicada demais. Permanece porque ainda existe a esperança de arrancar do outro alguma coisa que ele nunca entregou de forma natural. E essa é uma das armadilhas mais difíceis de enxergar de dentro dela: eu não estava apenas esperando atenção, cuidado, consideração. Eu estava acreditando que, se encontrasse as palavras certas, se tivesse paciência suficiente, se aguentasse só mais um pouco, aquilo finalmente ia aparecer.
Construir alguma coisa com alguém e convencer alguém a construir com você são duas atividades completamente diferentes.
Guardei o print de uma mensagem de três linhas durante seis meses. Quando a relação entra nessa lógica, tudo se distorce de tamanho: um gesto mínimo ganha importância desproporcional, uma mensagem no meio da tarde vira prova de afeto, uma semana razoável parece evidência de mudança estrutural. Passei a viver de intervalo, de momento específico, de pequena demonstração que precisava compensar sozinha uma ausência muito maior — como quem se aquece numa faísca. E é exaustivo, porque exige trabalho constante de interpretação. Nada é recebido de forma simples. Tudo precisa ser analisado, traduzido, justificado. Como se o vínculo dependesse permanentemente da minha capacidade de encontrar significado onde quase não havia sustentação.
Contei isso a mim mesmo com certo orgulho: eu estava lutando pela relação. Estava sendo compreensivo, maduro, resiliente — e talvez estivesse mesmo, não vou tirar isso de mim. O estrago começa quando toda essa energia passa a servir apenas para manter de pé uma coisa que o outro não demonstra o mesmo interesse em sustentar. Dali em diante a relação deixa de ser encontro e vira esforço. Não o esforço dividido que todo vínculo exige em determinados períodos, mas o esforço concentrado inteiro num lado só da casa.
Um dia eu me ouvi perguntando o que eu precisava fazer para receber, e a frase me pegou de susto na própria boca. Porque não é só a relação que começa a falhar: a autoestima entra na conta junto. Existe algo profundamente corrosivo em passar meses tentando provar que se merece um cuidado que devia ser básico, o mínimo, o arroz com feijão. Aos poucos eu parei de perguntar por que ele não conseguia me oferecer aquilo e comecei a perguntar o que faltava em mim. É uma mudança pequena na frase e enorme na consequência: sem perceber, eu saí do lugar de quem avalia a qualidade de um vínculo e fui parar no lugar de quem tenta merecer o que já deveria existir.
Contei as vezes, um dia desses. Foram sete conversas sobre exatamente a mesma coisa em dois anos, com as mesmas palavras minhas e as mesmas respostas dele. Por isso certas relações deixam um gosto amargo mesmo quando o afeto continua ali, intacto. Não é apenas a falta de reciprocidade: é o desgaste de ter corrido atrás dela por tempo demais. É olhar para trás e contar quantas vezes eu expliquei a mesma dor, pedi a mesma coisa, apontei o mesmo problema e continuei acreditando que na próxima conversa tudo enfim faria sentido do outro lado. Uma hora fica difícil não reconhecer o óbvio: certas pessoas entendem perfeitamente o que está acontecendo. Elas apenas não estão dispostas a mudar o jeito como se relacionam.
E aceitar isso dói porque desmonta uma fantasia muito sedutora: a de que amor suficiente resolve. Nem sempre resolve. Às vezes o amor existe e a responsabilidade não existe junto. O carinho existe e a consideração não acompanha. A presença aparece quando é conveniente e some exatamente quando exigiria esforço. Não há quantidade de compreensão capaz de compensar essa diferença indefinidamente — assim como não há mão no mundo que transforme faísca em chama dentro de um isqueiro vazio.
Talvez amadurecer tenha menos a ver com aprender a amar e mais com reconhecer a hora de parar de implorar por uma coisa que nunca deveria precisar ser pedida tantas vezes. Porque chega um ponto em que já não interessa o quanto eu sinto pelo outro. Interessa o quanto eu estou disposto a me abandonar para continuar ali dentro. Reciprocidade não é prêmio. Não é conquista. Não aparece depois de insistência suficiente. Ou ela faz parte da relação, ainda que de um jeito imperfeito, ou eu passo tempo demais tentando transformar ausência em promessa. E ausência, por mais que a gente queira acreditar no contrário, raramente vira presença só porque foi amada com força. Não é a força da mão que está faltando. É o gás.
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