Cozinhei uns quatro meses com a luz da sala acesa, porque a lâmpada da cozinha tinha queimado e eu não trocava. Não era preguiça exatamente. Era que toda a minha atenção estava em outro lugar. Depois de certas experiências acontece uma mudança que ninguém percebe na hora: no começo tudo gira em torno do que aconteceu. A cabeça fica presa no acontecimento como se ainda existisse ali uma resposta escondida, capaz de reorganizar o resto. Volto às mesmas conversas, aos mesmos momentos, às mesmas perguntas. O pensamento acorda ali e termina o dia no mesmo lugar. Existe uma tentativa constante de compreender o outro, de entender as motivações dele, de achar uma explicação satisfatória o bastante para justificar o tamanho do estrago. E, por um tempo, parece que seguir em frente depende disso — como se a vida só pudesse voltar a andar depois que todas as peças enfim encaixassem.
Uma noite dessas eu me flagrei repetindo a mesma conversa comigo mesmo pela enésima vez e parei no meio da frase. Existe limite até para esse movimento, e o limite não chega como decisão: chega como cansaço. Depois de meses revisitando os mesmos cenários por dentro, eu percebi que continuava pensando, continuava analisando, continuava tentando organizar o que tinha acontecido — e aquilo já não produzia nada de novo, nem uma linha. É nesse ponto que alguma coisa começa a mudar. Não porque a dor tenha ido embora, nem porque apareceu uma grande revelação numa terça-feira qualquer. É que ficou impossível ignorar uma pergunta esquecida desde o início: enquanto toda essa energia estava voltada para a ferida, o que aconteceu com quem estava tentando sobreviver a ela?
Deixei de comprar fruta. Deixei de trocar o lençol no dia certo. Porque o pior dessas experiências é a capacidade que elas têm de ocupar todos os cômodos de uma casa: a vida passa a funcionar em volta do dano, a rotina continua existindo mas perde densidade, o corpo continua presente mas quase como ferramenta para atravessar o dia. Comer, dormir, descansar, ver gente, fazer plano — tudo vira secundário diante da necessidade de entender, processar ou suportar. Sem perceber, eu passei meses vivendo em função daquilo que me machucou, com a casa inteira organizada em torno de um cômodo escuro. E existe uma solidão muito específica nisso, porque quase tudo acontece por dentro, num lugar onde ninguém consegue ajudar de verdade.
Por isso eu nunca acreditei que a virada viesse pela vingança, pelo menos não do jeito que costumam imaginar. Durante muito tempo existe a fantasia de que alguma coisa vai fechar a conta: que o outro vai entender, que vai sentir, que vai reconhecer, que haverá em algum lugar uma compensação capaz de equilibrar a balança. A vida raramente funciona assim. Tem gente que nunca compreende o tamanho do estrago que causou. Tem gente que compreende e segue em frente do mesmo jeito, dormindo bem, viajando, postando foto. E é profundamente frustrante descobrir que a minha recuperação não pode continuar dependendo desse reconhecimento — porque ele pode simplesmente nunca chegar.
A mudança começou em lugares bem menos dramáticos do que eu esperava. Não numa grande conversa, não num momento de superação com trilha sonora ao fundo. Começou quando o corpo voltou a importar. Quando dormir voltou a importar. Quando uma tarde parada deixou de parecer desperdício. Quando eu percebi que tinha passado quatro horas sem revisitar mentalmente a mesma história. Quando uma bobagem me fez rir de verdade e, por alguns segundos, a dor saiu do centro do palco. Parece pouco e não é: depois de muito tempo apenas sobrevivendo, voltar a ter algum interesse pela própria vida é uma transformação enorme.
E essa reconstrução não se parece com esquecimento, é bom deixar claro. A memória continua existindo inteira. Algumas coisas continuam doendo quando alguém encosta sem querer. Certos acontecimentos mantêm exatamente o peso que sempre tiveram, e vão manter. O que muda é outra coisa: eles deixam de organizar todos os meus movimentos. Deixam de ser o filtro através do qual tudo é vivido. E quando isso acontece aparece uma percepção que talvez estivesse disponível desde o começo, só que a dor não deixava enxergar — durante todo aquele tempo eu estava tentando entender quem causou o dano, enquanto a pessoa que mais precisava da minha atenção era justamente quem tinha ficado para lidar com as consequências dele.
Troquei a lâmpada num sábado de manhã, sem pensar muito, e a cozinha voltou a existir. Talvez a reconstrução comece exatamente aí. Não quando o passado faz sentido. Não quando o outro reconhece tudo o que fez. Nem quando a dor desaparece por completo, porque talvez ela não desapareça nunca. Mas quando sobra energia suficiente para voltar a olhar para si e perceber que existe uma vida inteira esperando para ser habitada além daquilo que aconteceu. Depois de tanto tempo morando em volta da ferida, acender a luz de um cômodo já é uma mudança enorme.
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