A obrigação de transformar tudo em conteúdo

Comecei a filmar o meu café da manhã uma vez. Juro que sim. Coloquei a xícara na luz da janela, mexi o café devagar para o vídeo ficar bonito, gravei três tomadas, e não postei nenhuma — depois fiquei uns minutos parado na cozinha me perguntando o que eu tinha acabado de fazer com a minha manhã. Porque virou isso: tudo parece precisar virar conteúdo. O café, o treino, o caminho para o trabalho, a ida à praia, a roupa escolhida na frente do armário aberto. Já não basta viver a coisa; ela precisa ser registrada, cortada, legendada e publicada, como se a minha existência dependesse de ter alguém do outro lado assistindo.

Em algum momento, sem aviso e sem votação, a internet parou de ser lugar onde se divide alguma coisa e virou vitrine acesa vinte e quatro horas por dia, onde cada um é empurrado a transformar a própria rotina em mercadoria. Eu abro o aplicativo e vejo uma multidão inteira tentando converter vida comum em entretenimento, mesmo quando não está acontecendo absolutamente nada além da vida acontecendo.

E é por isso que tanto conteúdo tem a mesma cara — não porque as pessoas sejam iguais, elas não são. É que a plataforma premia a repetição. O mesmo enquadramento, a mesma música que estourou na semana passada, o mesmo formato, o mesmo vídeo prometendo mostrar uma experiência quando está mostrando alguém fazendo uma coisa perfeitamente comum.

Vem pra praia comigo, diz o vídeo. E a praia continua sendo só uma praia.
Se arruma comigo, convida o outro. E a pessoa está vestindo uma roupa na frente de um espelho.

O que está sendo dividido ali não é experiência, não é reflexão, não é ideia. É presença. É a necessidade de ser visto, lembrado, confirmado por uma plateia que ninguém consegue enxergar. Não tem nada de errado em querer atenção — eu quero, eu escrevo num blog, seria hipocrisia minha dizer o contrário. O estrago começa quando a atenção deixa de ser consequência e passa a ser a finalidade.

Aos poucos foi se instalando a fantasia de que cada pessoa precisa virar uma marca de si mesma. Como se existir na internet exigisse carisma em tempo integral, produção sem pausa e disposição para transformar qualquer canto da vida em material consumível. Tem muita gente que já não usa a rede para dizer quem é: usa a própria identidade como produto, com embalagem, com promessa, com prazo de validade. E daí vem o efeito mais curioso de todos — quanto mais gente tenta parecer interessante, mais igual a internet fica. A caça à relevância sufoca justamente aquilo que poderia tornar alguém singular. No lugar de personalidade, sobra formato. No lugar de voz própria, tendência reproduzida em escala industrial.

E quase todo mundo está exausto disso e continua alimentando a máquina, eu inclusive. Consumo conteúdo que já não me desperta nada, sigo perfil por hábito antigo, publico porque sinto que deveria publicar, e olho o número depois de meia hora fingindo que não estou olhando. É uma relação quase automática com plataformas que transformaram atenção em moeda e visibilidade em medida de valor pessoal.

A vida vai sendo organizada não pelo que é vivido, mas pelo que pode virar publicação — e quando isso acontece, alguma coisa se perde no caminho sem fazer barulho nenhum. Nem toda experiência precisa ser dividida para ter sentido. Nem todo instante precisa virar registro. Tem coisa que continua valendo justamente porque acontece fora da lógica da exibição, sem nenhuma prova de que aconteceu.

Talvez a tarefa mais difícil hoje seja preservar alguma verdade dentro de um ambiente que paga por performance. Não porque as pessoas tenham ficado falsas, isso é conversa preguiçosa. É que foram colocadas dentro de um sistema que incentiva o tempo todo a construção de versões vendáveis de si. E existe um cansaço muito fundo em viver com a sensação de que cada momento precisa virar conteúdo para justificar a própria existência. Tem vida que fica mais interessante quando é apenas vivida.

Não porque seja extraordinária. Porque ainda pertence a quem a vive, e não ao algoritmo que a consome.

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