A obrigação de transformar tudo em conteúdo

As redes sociais criaram uma sensação estranha de obrigação permanente de performance. Tudo parece precisar se transformar em conteúdo. O café da manhã, o treino, o caminho para o trabalho, a ida à praia, a roupa escolhida para sair de casa. Não basta mais viver uma experiência; ela precisa ser registrada, editada e publicada, como se sua existência dependesse de ser assistida por alguém.

Em algum momento, a internet deixou de funcionar apenas como espaço de compartilhamento e passou a operar como uma vitrine contínua onde cada pessoa é incentivada a transformar a própria rotina em produto. A impressão é que existe uma multidão tentando converter a vida cotidiana em entretenimento, mesmo quando não há nada particularmente interessante acontecendo além da própria vida acontecendo.

Isso ajuda a explicar por que tanto conteúdo parece tão parecido. Não porque as pessoas sejam iguais, mas porque as plataformas recompensam repetição. Os mesmos enquadramentos, as mesmas músicas, os mesmos formatos, os mesmos vídeos que prometem mostrar uma experiência quando, na verdade, mostram apenas alguém executando atividades completamente comuns. 

"Venha para a praia comigo", diz um vídeo. Mas a praia continua sendo apenas uma praia. 
"Arrume-se comigo", convida outro. E a pessoa está simplesmente colocando roupa diante de uma câmera. 

O que está sendo compartilhado não é exatamente uma experiência, uma reflexão ou uma ideia. É presença. É a necessidade constante de ser visto, lembrado e confirmado por uma audiência invisível. Não há nada de errado em desejar atenção. O problema surge quando a atenção deixa de ser consequência e passa a ser finalidade.

Aos poucos, criou-se a fantasia de que toda pessoa precisa se tornar uma espécie de marca de si mesma. Como se existir online exigisse carisma permanente, produção constante e disponibilidade para transformar qualquer aspecto da vida em material consumível. Muita gente já não usa a internet para expressar quem é. Usa a própria identidade como produto. E isso produz um efeito curioso: quanto mais pessoas tentam parecer interessantes, mais homogênea a internet se torna. A busca incessante por relevância acaba sufocando justamente aquilo que poderia tornar alguém singular. Em vez de personalidade, surgem formatos. Em vez de voz própria, surgem tendências reproduzidas em escala industrial.

Talvez o aspecto mais curioso seja perceber que boa parte das pessoas parece exausta desse modelo enquanto continua alimentando o próprio mecanismo. Consome conteúdos que já não despertam interesse real, acompanha perfis por hábito, publica porque sente que deveria publicar. Existe uma relação quase automática com plataformas que transformaram atenção em moeda e visibilidade em medida de valor pessoal.

A vida cotidiana passa a ser organizada não apenas pelo que é vivido, mas pelo que pode ser transformado em publicação. E, quando isso acontece, algo se perde no caminho. Nem toda experiência precisa ser compartilhada para ser significativa. Nem todo momento precisa ser transformado em registro. Algumas coisas continuam tendo valor justamente porque acontecem fora da lógica da exibição.

Talvez uma das tarefas mais difíceis hoje seja preservar alguma autenticidade num ambiente que recompensa performance. Não porque as pessoas tenham se tornado artificiais, mas porque foram inseridas em um sistema que incentiva constantemente a construção de versões vendáveis de si mesmas. E existe algo profundamente cansativo em viver sob a sensação de que cada momento precisa ser transformado em conteúdo para justificar a própria existência. Algumas vidas continuam mais interessantes quando são simplesmente vividas. 

Não porque sejam extraordinárias, mas porque ainda pertencem a quem as vive, e não ao algoritmo que as consome.

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