Quando todas as opções parecem ruins

Passo quarenta minutos rolando o catálogo e não escolho nada. Leio a sinopse de doze filmes, salvo três numa lista que nunca abro, volto para o começo da fileira. Não é falta de opção: é que eu já sei como cada uma daquelas histórias termina antes de apertar o play. A vida fica assim quando o futuro deixa de ser imaginado como possibilidade e passa a ser imaginado como repetição. Em algum momento certas experiências se acumulam de tal forma que o olhar encontra os rastros delas em toda parte. A solidão já é conhecida. A decepção também. A instabilidade também. E o que antes parecia escolha entre diferentes formas de viver começa a parecer escolha entre diferentes formas de perder.

Todo título tem cara de coisa que eu já assisti, mesmo os que eu nunca vi. É o cansaço fazendo o serviço de resenhista: poucas coisas cansam tanto quanto acreditar que toda alternativa disponível leva a algum tipo de perda. Não se trata de estar sozinho, nem de ter vivido apenas experiências ruins — o que muda é a repetição de determinadas histórias começando a alterar o modo como o futuro é imaginado. Aos poucos, o horizonte afetivo deixa de ser espaço de possibilidade e vira catálogo de riscos conhecidos: a solidão numa fileira; na outra, as relações marcadas pela instabilidade, pela ausência de compromisso, pela dificuldade de construir projeto comum, pela sensação permanente de que o que existe pode sumir a qualquer momento.

Escuto histórias que começam diferentes e terminam iguais, contadas por gente diferente, em anos diferentes, com nomes diferentes. Depois de um tempo a pessoa aprende a adivinhar o terceiro ato pela primeira cena — e essa percepção não nasce do nada, ela se constrói pela observação, pela experiência e pelo que se foi acumulando. Muitos homens gays chegam à vida adulta carregando um repertório afetivo feito de vínculo interrompido, relação indefinida, promessa que nunca se concretiza, encontro preso no território do provisório. Não porque isso seja característica inevitável das relações entre homens, mas porque diferentes gerações cresceram em contextos onde construir estabilidade afetiva nunca foi simples. Durante muito tempo, sobreviver já consumia energia demais. Projetar uma vida inteira ao lado de alguém parecia privilégio distante.

A capa promete uma coisa e a sinopse entrega outra, e mesmo assim a gente clica — porque a capa é feita exatamente para isso. Certos fantasmas continuam circulando apesar de todas as transformações das últimas décadas, e todos eles têm a mesma cara de coisa que já vi: o medo da traição, o medo do abandono, o medo de investir anos numa história e descobrir que ela significava coisas diferentes para cada um. O medo de ser tratado como opção temporária quando o desejo era construir permanência. O medo de que a intimidade acumulada durante anos não segure uma ruptura repentina. Poucas descobertas doem tanto quanto perceber que amor e estabilidade não são necessariamente a mesma coisa.

Começo um filme e paro na metade, não porque esteja ruim, mas porque reconheci a curva. Fico com a luz da tela na cara, calculando quanto ainda falta e quanto aquilo vai custar. É essa a sensação mais amarga que a repetição produz: a impressão de que a escolha é sempre entre duas formas de sofrimento. Ficar sozinho para evitar decepções futuras, ou aceitar vínculos incapazes de oferecer a segurança emocional desejada. Instalada essa lógica, o amor deixa de ser possibilidade de encontro e vira negociação constante de danos. Em vez de perguntar o que posso construir, passo a perguntar qual dor estou disposto a suportar.

A televisão fica parada no menu e a luz azul pisca na parede da sala, mudando de cor a cada trailer que roda sozinho. Ninguém está assistindo e a máquina continua oferecendo. O que se gasta ali não é tempo, é esperança — e toda relação duradoura exige algum grau de crença no futuro. Exige acreditar que certas promessas podem ser sustentadas ao longo do tempo. Exige acreditar que alguém continuará fazendo escolhas parecidas amanhã, mesmo que ninguém possa garantir isso hoje. Quando a confiança nessa possibilidade se corrói, não é apenas o amor que sofre: é a capacidade de imaginar um futuro compartilhado.

Anderson dorme no sofá com o telefone na barriga enquanto eu decido por nós dois, e às vezes fico ali mais tempo do que precisaria só para não ter que acordá-lo e admitir que não escolhi nada. Tanta gente descreve um cansaço afetivo que vai além das experiências individuais — não é uma decepção específica, não é uma história que terminou mal: é a sensação de que os modelos disponíveis são insuficientes. Como se a solidão prometesse proteção ao custo da companhia, enquanto certas relações prometem companhia ao custo da tranquilidade. E aí aparece a pergunta desconfortável: será que existe mesmo alguma coisa diferente?

O catálogo é o mesmo de ontem. As fileiras não mudaram, os títulos não mudaram, quem mudou fui eu — e quem monta a fileira, agora, é a minha própria expectativa. Essa pergunta não tem resposta simples, e vale observar que ela nasce menos da realidade objetiva do que do acúmulo de experiências que moldam a percepção dela. Quando a dor se repete, o olhar passa a procurar confirmação dela em todo lugar. O risco deixa de parecer possibilidade e passa a parecer certeza. O futuro deixa de ser território aberto e passa a parecer roteiro já conhecido.

Desliguei a televisão sem escolher nada, de novo, e fui dormir com a sensação de ter feito alguma coisa sensata. A tristeza está aí, e não na existência da solidão, da traição ou da instabilidade: está no momento em que elas ocupam tanto espaço que nenhuma outra possibilidade parece plausível. Quando isso acontece, encontrar alguém deixa de ser a dificuldade principal. A dificuldade passa a ser recuperar a capacidade de imaginar que algumas histórias podem terminar diferente das anteriores.

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