Já disse "nunca mais" com o peito estufado, olhando bem nos olhos de alguém, certo daquilo como quem assina documento. Um ano depois eu estava sentado na mesma mesa de bar, tomando café com essa mesma pessoa, os dois rindo de alguma coisa boba, e nenhum dos dois comentou a palavra que eu tinha jurado valer pra sempre. Fiquei olhando o resto do café esfriar no fundo da xícara, pensando em quantas vezes eu já tinha dito "nunca mais" e "para sempre" com a mesma convicção de quem não vai precisar voltar atrás. Foi aí que reparei: quase toda certeza minha que parecia definitiva era muito mais frágil do que eu imaginava, e cada frase absoluta que eu dizia era, na verdade, um muro levantado às pressas pra me proteger de alguma coisa que eu ainda não sabia nomear.
Vi amor que parecia eterno terminar numa única noite — não porque fosse falso, mas porque intensidade e permanência nem sempre caminham juntas. Vi também que amizade não é o território seguro que eu imaginava: gente que um dia ocupou os lugares mais importantes da minha vida virou estranha, e gente que eu nunca imaginaria carregar comigo ficou, bem quando quase todo o resto já tinha ido embora.
Demorei pra entender que o amor sozinho não sustenta relação nenhuma. Cresci ouvindo que ele bastava, que vencia tudo, que superava qualquer obstáculo — outra frase absoluta, outro muro, dito com a mesma segurança de sempre. Na prática foi menos romântico: amor sem respeito desgasta, amor sem confiança adoece, amor sem escolha repetida todo santo dia vira só uma lembrança bonita de uma coisa que já não existe.
A descoberta mais estranha foi perceber que dá pra amar alguém e, ainda assim, não gostar dessa pessoa. Por muito tempo achei que as duas coisas fossem inseparáveis; hoje sei que não são. Existe afeto que fica mesmo quando a convivência virou impossível. Existe gente que continua ocupando espaço dentro de mim muito depois de deixar de ser lugar onde eu gostaria de ficar.
Hoje desconfio até das certezas boas que eu tinha sobre os outros. Passei anos tentando entender quem uma pessoa era e mesmo assim me surpreendia, porque conhecer alguém é tarefa sem fim, e nem a mim mesmo eu consigo conhecer por completo. Se a vida inteira é descobrir parte nova de quem eu sou, como esperar enxergar inteiro alguém que está do lado de fora de mim?
No meio de tudo isso, pra mim, algumas coisas passaram a valer outra coisa. A confiança deixou de ser luxo emocional e passou a ser sobrevivência. Os amigos que ficaram comigo durante a queda pesaram mais do que todos os que apareceram durante a subida. E minha família, com toda imperfeição que tem, continuou sendo uma das poucas estruturas capazes de atravessar o tempo sem depender de conveniência nenhuma.
Entendi, depois de tropeçar bastante, que o orgulho é menos definitivo do que parece. O "nunca mais" raramente dura pra sempre. E o "para sempre" quase nunca dura tanto quanto promete. A vida tem uma habilidade irritante de desmontar, um por um, os muros que eu levantava bem na hora que mais precisava me proteger dela.
E a lição mais honesta é esta: vou continuar me surpreendendo. Com os outros, comigo mesmo, com os caminhos que escolho e com os que eu jamais imaginei percorrer. Vou continuar errando, voltando atrás, mudando de ideia, caindo e levantando um número de vezes que eu nem quero contar.
Porque existe parte da vida que só se aprende vivendo ela, batendo de cara nela. E, mesmo depois de tudo que já aconteceu, continuo com a sensação de que sei muito menos do que um dia imaginei saber — o que talvez seja a única frase que eu ainda diria com a mesma convicção de quando disse "nunca mais", olhando alguém nos olhos, sem saber que um dia ia estar sentado tomando café, tranquilo, bem na frente da pessoa que eu jurei nunca mais ver.
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