Carrego dentro de mim um mapa cheio de anotação, marca, rabisco, caminho possível, feito à mão e sem legenda. Demorei para entender que era um mapa até a felicidade — essa coisa móvel, que muda de lugar bem na hora em que eu acho que chego perto. Passei anos procurando um destino, quando ela estava espalhada em dezenas de momentos pequenos que só ganham valor quando eu olho para trás. A falta nunca foi do mapa. Foi de saber ler o que já estava escrito nele.
Quando penso no que realmente importa, quase nunca penso nos grandes acontecimentos: penso nas marcas miúdas espalhadas por aquele papel, cenas aparentemente comuns que, juntas, contam quem eu fui. Olhar fotografias dos meus amigos na praia e sentir aquele aperto contraditório da saudade. Ver minha mãe preparando um bolo. Jogar videogame com meu cunhado enquanto minha irmã, já impaciente, chama por ele pela terceira vez. Sentar na frente de casa com amigos de infância, dividir cerveja e conversar até a madrugada chegar sem pedir licença.
Penso também nas noites em que vou para a área aberta da casa, acendo um cigarro e fico só ouvindo a música que escapa do quarto, encarando a parede, deixando o pensamento ir para onde quiser. Em comprar uma roupa nova. Em acordar num dia em que o mundo parece menos pesado. Em ler um livro e rir sozinho. Em ouvir uma música pela primeira vez e sentir aquela alegria estranha de perceber que alguém, em algum lugar, transformou em letra uma coisa que eu nunca soube explicar. Nada disso está marcado com destaque nenhum no mapa — são todos pontos pequenos, quase invisíveis, e é por eles que o caminho passa.
Recebo uma ligação do meu melhor amigo e ele me chama por aqueles apelidos absurdos que só fazem sentido entre nós — e essas são as felicidades que vêm pelas pessoas, a parte mais rabiscada do papel. Passar vergonha na frente dos amigos dividindo uma pizza. Dançar sem dignidade nenhuma porque ninguém ali está preocupado em parecer interessante. Descobrir que sempre vai ter alguém disposto a lembrar quem eu sou quando eu mesmo esquecer.
Vejo ele — o homem que eu amo — e sei que existe uma vida inteira de pequenos gestos que nunca vão acontecer entre nós. Nunca vou sentar numa varanda qualquer numa tarde preguiçosa só para acariciar o cabelo dele enquanto o tempo passa sem pressa. Essa é a felicidade que vem com tristeza junto — no mapa, ela aparece como os caminhos que terminam no meio. Eu sei que ele continua importante mesmo não estando presente, e reconhecer isso, confesso, também é uma forma de continuar amando.
O cheiro do café pela manhã. O dinheiro esquecido no bolso de uma calça. As conversas sem propósito. As viagens que ainda me visitam quando fecho os olhos. As músicas que encontrei pelo caminho. Os amigos que sobreviveram ao tempo. As pessoas que amei. As que me amaram. E até aquelas que não puderam me amar de volta. Seria isso o que eu levaria se precisasse resumir uma vida — não os grandes marcos, não os momentos que pareceram históricos enquanto aconteciam, mas essas marquinhas espalhadas pelo papel inteiro.
Porque felicidade, no fim, nunca foi um lugar onde se chega. É isso, talvez: uma coleção de instantes bonitos o bastante para continuar existindo dentro de mim muito depois que o resto passar — o mapa inteiro, sem destino nenhum marcado nele.
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