Uma coisa que demorei bastante tempo para admitir sobre mim é que eu não evito discussões porque sou particularmente maduro. Nem porque aprendi a escolher minhas batalhas, nem porque desenvolvi uma serenidade admirável depois de tantos anos. A explicação é bem menos elegante do que isso. Eu evito certas discussões porque conheço a versão de mim que aparece quando ultrapasso determinado limite. E não gosto muito dela.
Tem gente que perde o controle de forma visível. Levanta a voz, chora, bate porta, desaparece por horas. Comigo o processo costuma ser diferente. Quanto mais irritado eu fico, mais organizado meu pensamento parece ficar. É uma sensação estranha porque, por fora, nem sempre acontece muita coisa. Mas por dentro tudo começa a se encaixar rápido demais. As contradições da outra pessoa aparecem com clareza, os pontos frágeis ficam evidentes, as justificativas deixam de convencer. E junto dessa clareza vem algo que não gosto de admitir: uma vontade enorme de usar tudo isso.
Acho que existe uma diferença importante entre perceber uma vulnerabilidade e decidir o que fazer com ela. Quando estamos bem, normalmente escolhemos não atravessar certos limites. Entendemos que enxergar uma ferida não nos dá o direito de apertá-la. O problema é que a raiva altera essa lógica. Em alguns momentos ela produz uma espécie de autorização interna muito perigosa. Você começa a acreditar que machucar é legítimo porque foi machucado primeiro. Que expor é justo porque se sentiu exposto. Que devolver é uma forma aceitável de equilibrar a situação.
E é justamente aí que eu me torno alguém com quem não gosto de conversar.
Porque, quando chego nesse lugar, a discussão deixa de ser sobre entendimento. Não estou mais tentando resolver nada. Não estou tentando ser compreendido. Não estou tentando construir uma ponte. Quero ganhar. E ganhar, em determinadas discussões, significa encontrar a frase certa. Aquela que desmonta a defesa do outro. Aquela que faz silêncio cair na conversa. Aquela que você sabe que a pessoa vai lembrar depois. Talvez por dias.
O problema é que esse tipo de vitória costuma ser ridículo quando passa a raiva. Na hora parece justiça. Horas depois parece só destruição desnecessária. Porque existe uma diferença enorme entre dizer uma verdade difícil e usar uma verdade como arma. E eu acho que muita gente inteligente se engana justamente nesse ponto. Confunde lucidez com legitimidade. Como se enxergar algo desse automaticamente o direito de dizer da forma mais cruel possível.
Talvez por isso eu tenha desenvolvido o hábito de me afastar quando percebo que estou chegando perto desse limite. Não porque virei uma pessoa iluminada. Muito menos porque perdi a capacidade de sentir raiva. É quase o contrário. Eu me afasto porque sei exatamente o que acontece quando continuo. Sei o tipo de coisa que sou capaz de dizer. Sei que, naquele estado, minha preocupação deixa de ser a relação e passa a ser o impacto.
E algumas frases têm uma vida útil muito maior do que a discussão que as produziu.
Acho curioso quando alguém interpreta esse comportamento como paciência. Como equilíbrio. Como uma habilidade admirável de evitar conflitos. Na maior parte das vezes não é nada disso. É contenção. É reconhecer que existe uma versão sua que não deveria participar daquela conversa. Pelo menos não naquele momento.
No fundo, desconfio que muita gente que parece tranquila durante discussões não é necessariamente pacífica. Apenas conhece bem demais a própria capacidade de destruir quando deixa de se importar com as consequências do que está dizendo. E, às vezes, o silêncio não é sinal de calma. É só uma tentativa de impedir que a pior versão de si mesmo assuma o controle da conversa.
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