A linguagem de amor mais rara é a segurança

Atravessei a sala no escuro esta noite, sem acender a luz, e cheguei até a cozinha sem bater o dedo em nada. Só depois eu percebi o que aquilo tinha de bom. Durante muito tempo eu achei que proximidade nascia de intensidade — daquelas relações que ocupam todos os cômodos, aceleram o pensamento, fazem o dia parecer mais vivo do que ele é. Tem alguma coisa sedutora nisso, e eu caí bonito. Urgência é confundida com profundidade com uma facilidade impressionante. Só depois de bastante desgaste é que eu comecei a desconfiar de que vinha procurando a coisa errada o tempo inteiro.

Porque chega um momento em que a gente cansa.
Não do amor. Nem da convivência. Cansa da tensão.

Cansa de andar pela própria casa com a mão esticada na frente do corpo. Cansa de interpretar silêncio. Cansa de descobrir o que uma mensagem quer dizer além do que está escrito nela. Cansa de conviver com mudança de humor que nunca é explicada, com dúvida que nunca é respondida de verdade, com a sensação constante de que alguém pode ter mudado a mobília de lugar enquanto eu dormia. Quem vive assim tempo suficiente descobre que boa parte da energia da relação não está sendo usada para amar. Está sendo usada para administrar insegurança.

E ninguém conta história sobre isso num jantar. A segurança emocional não rende: não vira relato de olho brilhando, não produz história cinematográfica, não tem aquele arco de paixão avassaladora que quase matou os dois e por isso valeu a pena. Na maior parte do tempo ela se parece apenas com normalidade — com saber onde ficam os móveis, com não precisar montar quebra-cabeça toda manhã para entender quem dorme do lado.

E tem algo quase estranho nisso, para quem passou tempo demais tropeçando no escuro.
Às vezes a calma demora a ser reconhecida.
Às vezes ela parece até falta de alguma coisa.

Não é que falte afeto. Falta o ruído ao qual eu me acostumei. Falta a adrenalina da crise às onze da noite. Falta o vaivém de aproximação e afastamento que tanta gente aprende a chamar de paixão. Quando o barulho some, sobra silêncio suficiente para eu enxergar uma coisa que estava embaixo dele o tempo todo: como é bom estar perto de alguém sem precisar me preparar para o impacto.

Durmo melhor em algumas casas do que em outras, e não tem nada a ver com o colchão. Certas relações produzem uma sensação rara de descanso — não porque sejam perfeitas, não porque não exista conflito, que conflito existe em toda casa habitada. É que o vínculo não exige vigilância. Não preciso conferir se continuo seguro ali. Não preciso medir cada palavra antes de dizer. Não preciso prever o próximo problema antes que ele bata na porta.

E talvez seja isso que mais aproxime duas pessoas depois de certa idade.
Não o encantamento inicial.
Não a intensidade dos primeiros meses.
Mas a raridade de encontrar alguém cuja presença não aumenta o peso que já se carrega.

Porque existe um alívio enorme em descobrir que o amor também pode ser um lugar onde o corpo relaxa: o ombro desce, a mandíbula solta, o sono chega sem negociação, e dá para atravessar a casa inteira no escuro sabendo exatamente onde está cada coisa. Depois de experimentar isso uma vez, fica muito difícil voltar a confundir ansiedade com conexão.

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