Quando a escrita tenta curar o que também quer ferir

Ouvi a minha própria história ser contada numa mesa por alguém que não estava lá, e a versão estava errada em três pontos que eu não tive coragem de corrigir na hora. Voltei para casa e escrevi. Algumas experiências encontram maneiras inconvenientes de permanecer: você acha que já seguiu em frente, muda de assunto, ocupa a cabeça com outra coisa, e elas continuam aparecendo em horário impróprio. É daí que nasce a maior parte do que eu escrevo. Não de inspiração, nem de lampejo criativo bonito — da tentativa de dar forma a uma coisa que continua ocupando espaço muito depois de já ter terminado. A romantização da escrita sempre me pareceu estranha justamente por isso: ela ignora em que lugares pouco elegantes um texto costuma começar.

Nessas horas, escrever não tem muito a ver com arte.
Tem a ver com recuperar terreno.

Contaram a versão antes de mim, e a versão pegou. É isso que acontece quando alguma coisa importante desaba na sua vida: você continua vivendo as consequências, continua sentindo o impacto, continua lidando com o que ficou no chão — e a narrativa passa a ser organizada por outras pessoas. As versões circulam. As justificativas aparecem. As interpretações se acumulam em mesas onde você não está sentado. É como voltar do trabalho e encontrar a cerca do quintal deslocada meio metro para dentro, sem que ninguém tenha pedido licença. De repente eu estava gastando mais tempo discutindo com o que construíram em volta da história do que olhando para aquilo que eu de fato vivi.

Por isso eu desconfio quando alguém diz que escreve apenas para se expressar. Quase sempre tem outra coisa acontecendo por baixo.

Tem a tentativa de pôr ordem onde tudo ficou revirado.
Tem a necessidade de juntar pedaço que ficou espalhado.
Tem a vontade de olhar para uma coisa e conseguir dizer: foi isso que aconteceu comigo.

Não o que aconteceu.
O que aconteceu comigo.
E essa diferença é a cerca inteira.
Porque fato até se divide. Impacto, não.

Já escrevi texto sabendo exatamente quem ia ler. Seria desonesto fingir que isso nasce sempre de intenção nobre: nem todo texto é elaboração, nem todo texto é autoconhecimento. Às vezes existe o desejo de produzir efeito em alguém — e não estou falando de vingança, nem de exposição pública. Estou falando de uma coisa menor e bem mais humana: a vontade de que a pessoa entenda. De que ela finalmente perceba. De que exista, nem que seja por trinta segundos, alguma aproximação entre o que eu senti e o que ela consegue enxergar do lado de lá da cerca.

E isso quase nunca acontece do jeito imaginado.
A gente escreve achando que o texto vai produzir compreensão.
Costuma produzir defesa.
A gente escreve achando que vai encerrar uma história.
Costuma continuar girando em volta dela.

E é uma armadilha fácil de cair, porque escrever ajuda mesmo. Eu conheço coisas sobre mim que só descobri depois de pôr no papel — não porque fossem segredo fundo, mas porque existem ideias que só ficam claras quando ganham forma. Enquanto estão apenas na cabeça, ficam misturadas com emoção, memória, ressentimento, expectativa e medo, tudo no mesmo caldo, sem separação possível. O texto abre um palmo de distância, e é nesse palmo que dá para enxergar alguma coisa.

Mas a mesma ferramenta vira cadeia.

Porque dá para escrever sobre a mesma ferida durante anos e chamar isso de elaboração.

Dá para trocar enfrentamento por análise.
Dá para trocar movimento por interpretação.
Dá para transformar uma experiência em assunto permanente só porque ela rende bom texto.

Tenho uma pasta com textos que ninguém vai ler nunca. Nem toda escrita minha precisa cumprir a mesma função: tem texto que serve para ser publicado e tem texto que serve apenas para ser escrito. Tem texto que ajuda a entender uma situação e tem texto que só registra que ela existiu. E tem texto que não devia chegar a lugar nenhum além daquela pasta, porque já cumpriu o papel dele no minuto exato em que eu botei o ponto final.

No fim, continuo achando que escrever é uma das formas mais honestas de tentar entender a própria vida. Só que a parte que importa não está no que o texto provoca nos outros. Está no que ele devolve para quem escreveu. Porque, depois de passar tempo demais escutando versão montada por outra gente, a página é o primeiro pedaço de chão que volta a ser meu.

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