Nunca se arrependa do amor que foi capaz de dar

Levei quarenta minutos embrulhando um presente, uma vez. Escolhi o papel, cortei, dobrei o canto, refiz o laço três vezes porque não estava simétrico. Hoje eu olho para aquela cena e a primeira coisa que sobe não é ternura: é vergonha. E essa é a mudança curiosa que acontece depois de algumas decepções. Enquanto a relação está acontecendo, ninguém olha para o próprio afeto como problema — a pessoa ama, investe, cria expectativa, faz plano, se envolve, e mesmo quando aparece dificuldade a tendência é ler aquilo como parte da construção de uma coisa maior. Quando a história termina mal, quando aparecem as mentiras, as indiferenças, as contradições, ou simplesmente a constatação de que o outro não ocupava o mesmo lugar que eu ocupava para ele, começa uma revisão do passado inteiro. E essa revisão não se concentra apenas nos erros cometidos ou nas escolhas que podiam ter sido diferentes. Ela avança até um lugar bem mais delicado: a minha própria capacidade de amar passa a ser examinada como se fosse defeito de fábrica. Como se a dor de hoje fosse prova de que houve excesso lá atrás. Como se sofrer fosse evidência de que eu me entreguei mais do que devia.

Faço a lista dos meus arrependimentos e ela é comprida, tem itens de sobra. Arrependo-me de ter ficado quando já não havia reciprocidade. De ter ignorado sinal que estava aceso na minha frente, piscando. De ter afrouxado limite que devia ter sido mantido. De ter insistido em coisa que já não se sustentava sozinha havia meses. Tudo isso faz sentido, tudo isso é meu e eu carrego. O que não faz sentido nenhum é colocar o amor na mesma prateleira que esses itens. Porque, olhando para trás, não foi ele que produziu as partes ruins da história. O que feriu foi descobrir que a minha sinceridade encontrou conveniência do outro lado. Que o cuidado encontrou descaso. Que a disponibilidade encontrou alguém sem condição de oferecer nada parecido em troca. A decepção nasceu desse desencontro — e não do papel de presente que eu dobrei com capricho numa mesa, sozinho, num sábado à tarde.

Passei um ano inteiro me chamando de bobo em voz alta, sozinho dentro de casa. Dá tristeza ver alguém tratar a própria sensibilidade como erro de percurso, e mais tristeza ainda quando esse alguém é a gente mesmo. Depois de certas experiências, endurecer parece inteligência emocional. Parece maturidade. Parece proteção — e por algum tempo funciona mesmo, não vou fingir que não funciona. Só que toda proteção cobra. A mesma barreira que impede algumas feridas dificulta qualquer aproximação nova. A mesma defesa que reduz o risco de sofrer reduz junto a chance de viver alguma coisa com profundidade. E aos poucos eu deixei de desconfiar apenas dos outros e passei a desconfiar de mim: do que eu sinto, do que eu quero construir, da minha própria disposição para acreditar em alguém. Existe uma perda silenciosa nisso, porque o medo não é seletivo. Ele não barra só o que machuca — barra junto boa parte do que podia ter sido bom.

No fim, o que sobra é uma pergunta melhor do que qualquer conclusão pronta: o problema foi o amor que existiu, ou o lugar onde ele foi depositado? Porque as duas coisas não são a mesma, e confundi-las custa muito caro. Eu entendo arrependimento por escolha, por permanência que hoje me parece injustificável, por expectativa construída em cima de gente que não tinha como sustentá-la. O que eu não consigo entender é o desprezo retroativo pelo próprio afeto. Porque, apesar de toda dor que uma relação pode produzir, ainda me parece mais triste atravessar a vida inteira tentando não sentir nada do que descobrir, tarde, que alguém não soube cuidar daquilo que recebeu. Talvez certas pessoas não mereçam o amor que encontram. Talvez algumas histórias terminem justamente pelo descompasso entre o que um oferece e o que o outro consegue reconhecer. Mas isso diz respeito à história, e não ao valor do que existiu dentro dela. Transformar a própria capacidade de amar em motivo de vergonha é apenas prolongar uma perda que já aconteceu — e eu não pretendo ter vergonha de ter dobrado bem o canto do papel.

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