Nunca se arrependa do amor que foi capaz de dar

Existe uma mudança curiosa que acontece depois de algumas decepções amorosas. Enquanto a relação está acontecendo, quase ninguém olha para o próprio afeto como um problema. A pessoa ama, investe, cria expectativas, faz planos, se envolve. Mesmo quando surgem dificuldades, a tendência é interpretar aquilo como parte da construção de algo maior. Mas, quando a história termina mal, quando aparecem mentiras, indiferenças, contradições ou simplesmente a constatação de que o outro não ocupava o mesmo lugar emocional que você ocupava para ele, começa uma espécie de revisão do passado. E essa revisão nem sempre se concentra apenas nos erros cometidos ou nas escolhas que poderiam ter sido diferentes. Muitas vezes ela avança até um lugar mais delicado: a própria capacidade de amar passa a ser observada como se fosse uma falha. Como se a dor sentida no presente fosse prova de que houve excesso lá atrás. Como se sofrer fosse evidência de que se entregou mais do que deveria.

Talvez seja justamente aí que aconteça uma das confusões mais comuns depois de um rompimento. Porque existem muitas coisas das quais alguém pode se arrepender dentro de uma relação. É possível se arrepender de ter permanecido quando já não havia reciprocidade, de ter ignorado sinais importantes, de ter flexibilizado limites que deveriam ter sido mantidos ou de ter insistido em algo que já não se sustentava. Tudo isso faz sentido. O que me parece estranho é colocar o amor na mesma categoria. Afinal, olhando para trás, raramente é ele que produz as partes mais dolorosas da história. O que costuma ferir é descobrir que a sinceridade encontrou conveniência, que o cuidado encontrou descaso, que a disponibilidade encontrou alguém incapaz de oferecer algo semelhante em troca. A decepção normalmente nasce desse desencontro. Não do afeto em si.

Talvez por isso eu ache triste quando alguém começa a tratar a própria sensibilidade como se ela fosse um erro de percurso. É compreensível que isso aconteça. Depois de certas experiências, endurecer parece uma forma de inteligência emocional. Parece maturidade. Parece proteção. E, por algum tempo, talvez realmente funcione assim. O problema é que toda proteção cobra um preço. A mesma barreira que impede algumas feridas também dificulta novas aproximações. A mesma defesa que reduz o risco de sofrer reduz a possibilidade de viver algo com profundidade. Aos poucos, a pessoa deixa de desconfiar apenas dos outros e passa a desconfiar de si mesma, daquilo que sente, daquilo que deseja construir, da própria disposição para acreditar em alguém. E existe uma perda silenciosa nisso, porque o medo não seleciona apenas o que machuca. Ele também bloqueia parte do que poderia ser bom.

No fim, acho que algumas histórias deixam uma pergunta mais importante do que qualquer conclusão pronta. O problema foi realmente o amor que existiu ou o lugar onde ele foi depositado? Porque existe uma diferença enorme entre essas duas coisas. Posso entender o arrependimento por certas escolhas, por permanências que hoje parecem injustificáveis ou por expectativas construídas sobre pessoas que não tinham condições de sustentá-las. O que nunca consegui entender é o desprezo retrospectivo pelo próprio afeto. Porque, apesar de toda dor que uma relação pode produzir, ainda me parece mais triste atravessar a vida inteira tentando não sentir nada do que descobrir, tarde demais, que alguém não soube cuidar daquilo que recebeu. Talvez algumas pessoas não mereçam o amor que encontram. Talvez algumas histórias terminem justamente porque existe um descompasso entre o que um oferece e o que o outro é capaz de reconhecer. Mas isso diz muito mais sobre a história e sobre quem a viveu do que sobre o valor do amor que existiu dentro dela. E transformar a própria capacidade de amar em motivo de vergonha talvez seja apenas uma forma de prolongar uma perda que já aconteceu.

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