Parar de ensinar o básico também é autocuidado

Desenhei o caminho de casa num guardanapo pela terceira vez, para a mesma pessoa. Poucas coisas desgastam tanto quanto precisar voltar à mesma questão de novo e de novo — não apenas porque o problema continua existindo, mas porque ele passa a vir acompanhado de um trabalho contínuo de interpretação. A relação deixa de exigir energia só para lidar com o que aconteceu e passa a exigir energia para compreender, justificar e reorganizar aquilo que já ocupou espaço demais. Em algum momento o cansaço deixa de nascer do comportamento em si e passa a nascer da obrigação de explicá-lo mais uma vez.

No começo isso parece parte natural da convivência, e é mesmo. Ninguém conhece de imediato os limites, as sensibilidades e as partes moles de outra pessoa; conversar faz parte de qualquer vínculo minimamente vivo. O problema aparece quando a conversa deixa de ser sobre diferença individual e passa a girar em torno do básico. Quando eu me vejo explicando pela enésima vez por que determinada atitude machuca. Por que certa mentira abala a confiança. Por que um jeito de tratar é desrespeitoso, e não implicância minha.

Nesse ponto já não é entendimento sendo construído. É convencimento sendo tentado.

E o pior de tudo é a esperança. Eu reorganizo o argumento, escolho melhor as palavras, tento ser mais claro, mais paciente, menos ríspido — aposto que dessa vez a conversa finalmente vai produzir a mudança que as anteriores não produziram. Preparo a fala com a antecedência de quem prepara uma aula que já deu antes.

Funciona por um tempo. Vem o pedido de desculpas, vem o reconhecimento, vem a promessa dita com sinceridade legítima. E quando o comportamento volta quase igual, algumas semanas depois, aparece a dúvida que eu não queria ter de fazer: ele realmente não compreende, ou apenas não considera aquilo importante o bastante para mudar? Essa pergunta incomoda porque desloca o problema de lugar. Durante muito tempo eu acreditei que o que faltava era comunicação. Muitas vezes o que falta é disposição para rever a própria conduta.

E aí, sem perceber, eu passei a ocupar um papel que nunca deveria ter sido meu. Deixei de ser apenas o marido e virei intérprete, mediador, tradutor de mim mesmo. Sou eu quem precisa explicar o impacto das coisas, organizar a conversa difícil, tornar inteligível aquilo que já foi dito vinte vezes na mesma cozinha — sempre com o mesmo desenho, sempre a mesma esquina. E alguém que ainda não sabe é uma coisa; alguém que já ouviu, entendeu e continua fazendo igual é outra, completamente diferente.

Quando essa diferença ficou clara, alguma coisa mudou — não na relação, mas na distribuição do serviço dentro dela. Eu posso explicar uma dor, um limite, uma necessidade. Não posso produzir consciência no lugar de outra pessoa. Ninguém pode, por mais que ame.

Tem coisa que não se ensina indefinidamente. E entender isso alivia mais do que qualquer tentativa nova de explicação — porque, no fim, não é que ele se perca no caminho. É que ele nunca precisou aprender a rua, já que sempre houve alguém disposto a levá-lo pela mão até a porta.

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