Quando a versão solteira parecia mais comprometida

Fui à casa dele depois que a gente voltou, e a primeira coisa que me pegou foi a arrumação. A cama feita com o lençol esticado. A pia vazia. O chão sem areia. Nada daquilo tinha existido nos anos em que ele morou comigo. Levei um tempo para entender por que aquilo me incomodava tanto, e não era ciúme do passado nem competição com gente que já tinha ido embora. Era a memória. A lembrança muito concreta de quem ele foi durante o término e a dificuldade de encaixar essa imagem em quem ele voltou a ser dentro de casa. Porque certas coisas não apagam. Eu sei que existia disposição. Sei porque vi a casa.

E sei porque ele contava. Contava dos encontros, quase diários, com uma naturalidade que na época eu confundi com honestidade. Chegava do trabalho, tomava banho, saía. Corria de manhã. Malhava. Reorganizava horário, perdia noite de sono, atravessava a cidade, levava as putas dele para dentro daquela casa — e é essa a palavra que me vem, não vou fingir que me vem outra —, mantinha conversa, mantinha desejo, com gente que na maioria das vezes não representava nada além daquela noite. O trabalho já existia. O cansaço já existia. As responsabilidades eram exatamente as mesmas de hoje, com os mesmos horários. E ainda assim havia iniciativa. Havia movimento. Havia interesse suficiente para arrumar a cama antes de alguém chegar.

É por isso que certas justificativas ficam difíceis de engolir agora. A comparação que eu faço não é entre o começo da relação e o presente — essa seria injusta, e eu sei que seria. É entre o presente e o período em que não existia relação nenhuma. Entre a versão de alguém que encontrava espaço para tudo o que despertava o interesse dele e a versão que hoje aparece permanentemente cansada justamente para aquilo que ele afirma ser o mais importante da vida dele.

E não é saudade da fase de conquista, que é o que me respondem sempre que eu falo disso. Não estou pedindo que uma relação viva para sempre da intensidade dos primeiros meses; isso não existe e eu nem quero. O desconforto vem de outro lugar: da constatação de que havia uma quantidade enorme de energia disponível para gente sem vínculo, sem compromisso e sem importância emocional nenhuma. Gente que entrou e saiu. Gente que não ficou. Gente que, pelo próprio discurso dele, não significava nada — e que mesmo assim encontrou a casa limpa.

Faço a lista de cabeça e ela é sempre a mesma, sempre na mesma ordem. Havia energia para o encontro. Havia energia para o sexo. Havia energia para atravessar a cidade por alguém que sumiria três dias depois. Havia energia para a corrida da manhã. Havia energia para a academia. Havia energia para tirar a areia do chão antes de alguém subir. Quando a gente voltou, isso foi sumindo um por um, sem que ninguém anunciasse nada em lugar nenhum. Não encontrei a mesma disposição. Não encontrei a mesma iniciativa. Não encontrei aquele impulso quase automático de mexer na própria vida para abrir espaço para alguém.

A assimetria fica na cara. E o que dói não é a mudança de comportamento — as pessoas mudam, eu mudei também, e muito. O que dói é a impressão de que a melhor parte do esforço ficou reservada para quem nunca teve a menor intenção de permanecer. Como se desconhecido recebesse investimento e a relação recebesse administração. Como se a novidade acordasse alguma coisa e a estabilidade autorizasse o descanso.

E aí isso vira, inevitavelmente, uma questão de valor. Não é competição com fantasma nenhum: é a dificuldade de não perguntar por que havia tanta disposição para quem não significava nada e tão pouca para quem decidiu ficar.

Andei por aquela casa reconhecendo os móveis e não reconhecendo o cuidado. Existe uma humilhação difícil de dizer em voz alta, e ela não é apenas saber que aquelas pessoas existiram — é ter visto, com os meus olhos, a prova de que existiu uma versão dele que eu quase não conheci. Gente que chegou, recebeu o que procurava e foi embora: o desejo, a atenção, a iniciativa, o investimento inteiro. Encontraram alguém disponível, interessado, disposto, e encontraram a cama feita. Enquanto isso, quem ficou herda uma pergunta incômoda: o que sobra para quem escolheu permanecer? Porque a sensação, em muitos dias, não é a de ocupar um lugar privilegiado. É a de morar na casa onde já não se arruma nada, porque já não é preciso impressionar ninguém.

Por isso discussão banal, aqui dentro, carrega emoção grande demais para o próprio tamanho. A conversa começa por louça na pia, por areia no chão da sala, por um compromisso adiado, por uma falta de iniciativa qualquer num sábado à tarde. Mas quase nunca é sobre aquilo. O que está sendo discutido ali é prioridade. É a impressão de que existiu uma versão mais viva, mais presente e mais disponível para quem não construiu nada — enquanto eu, que fiquei, preciso negociar atenção, cuidado e investimento como quem pechincha em feira.

A vida adulta cansa todo mundo, e cansa a mim também. O problema nunca foi o cansaço. O problema é ele ter aparecido justamente depois que deixou de ser necessário conquistar. Depois que deixou de ser necessário impressionar. Depois que deixou de ser necessário provar qualquer coisa a alguém. Porque a memória continua ali, encostada na parede daquele corredor limpo, lembrando que já existiu energia para muito menos do que isto aqui.

E essa é a comparação mais difícil de suportar. Não com um grande amor do passado. Não com alguém que tenha sido especial, alguém que eu pudesse até respeitar. Com gente que não significou nada — e que ele mesmo diz que não significou nada. Gente para quem existiu disposição, iniciativa e investimento. Gente que recebeu uma versão dele que nunca chegou inteira até a casa onde a gente mora.

Porque algumas perguntas machucam justamente por serem simples.
Se havia tanto para dar a quem nunca ficou, por que tão pouco para quem escolheu permanecer?

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