Na festa, vi dois homens rindo de uma piada que só os dois entendiam, dessas tão pequenas que quase não existem, do tipo que só nasce entre gente que já decorou o jeito do outro rir. Cumplicidade é fácil de escrever e difícil de sentir de fora dela — fiquei ali com o copo suando gelo na mão, o corpo fingindo acompanhar a conversa, mas eu inteiro estava era naquele canto perto da piscina, medindo. Eles tinham menos tempo de casa do que eu e o meu, menos aniversário comemorado, menos briga feia superada, e mesmo assim nenhuma traição tinha passado por ali, nem escondida, nem à vista. Fiquei parado, medindo, e a medida nunca fecha do meu lado.
Essa régua que uso não conhece piedade: pego a felicidade inteira dele, exposta ali na beira da piscina, e comparo com o meu pior dia, o mais escuro, o que nem em terapia eu conto por completo. Pego a leveza que ele tem de rir sem olhar por cima do ombro e comparo com a minha vigilância, com esse hábito que criei de conferir tudo duas vezes antes de respirar aliviado. Do resultado eu quase sempre saio perdendo — não porque eu valha menos, disso eu sei —, mas porque a régua chegou emprestada nas minhas mãos, torta, ajustada por outra pessoa pra medir uma coisa que nunca fui eu.
Essa régua, eu sei agora, não nasceu comigo — eu só carrego ela feito dona de sempre. Nasceu no dia em que descobri a traição, se forjou numa fornalha que eu não escolhi acender, e desde então mede tudo: quanto eu mereço, quanto ele escolheu me trocar por pouco, por menos que pouco, quanto eu sou, ou deixei de ser, suficiente pra segurar alguém do meu lado da cama. Uso essa régua contra mim com pontualidade cruel, quase sempre no mesmo horário de madrugada, e nunca — reparo nisso agora — nunca uso a mesma régua, com a mesma força, contra mais ninguém.
Dois homens felizes numa festa deviam me render só um sorriso de leve, uma cena bonita que a gente vê de relance e esquece. Em vez disso, viraram espelho, e o espelho devolveu uma pergunta que eu não fiz por querer — ela subiu sozinha, sem pedir licença: por que eles e não eu? A resposta eu já sei, e ela não cabe na minha régua. Cabe no quarto dele, na noite em que ele decidiu sozinho trocar o que tinha por uma pessoa qualquer, sem me chamar pra votar, sem imaginar sequer que eu fosse descobrir o troco dessa conta. Régua nenhuma mede escolha de outra pessoa. Só mede o que sobrou aqui do meu lado.
Ainda assim, inveja. Pequena, envergonhada, do tipo que a gente não confessa nem pra si mesmo até bem depois. Não invejo a pessoa dele. Invejo a paz — essa que nenhuma régua minha nunca soube medir.
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