Eu sentava na arquibancada da universidade no fim da tarde, antes de entrar pra aula da noite. O céu ainda segurava um resto de dourado, o vento quente começava a amornar, as árvores sacudiam atrás da grade e, lá embaixo, um bando de gente corria o campo suando, brincando, gritando sem motivo. Nas fileiras de concreto, só casal deitado, um grudado no outro. Era pra isso que aquele lugar servia: duas pessoas se encontrarem ali e ficarem até o campo esvaziar. Eu olhava sem vontade de estar no lugar de ninguém — olhava como quem sabe que, mais cedo ou mais tarde, também vai descer pra arena e deitar numa daquelas fileiras. Demorei pra perceber que nem todo mundo que sentava ali vinha assistir ao mesmo jogo. Tinha quem não fosse só plateia; rondava feito urubu que já escolheu a carniça e só espera ela parar de respirar pra descer. Achei, por muito tempo, que ficar de olho em quem rondava por perto era coisa de gente insegura demais pra confiar no que tinha — quem joga limpo, eu pensava, não perde o jogo por causa de quem assiste. E talvez ainda seja assim na maioria das vezes: gente interessante vai sempre cruzar o caminho, conversa vai sempre nascer onde ninguém esperava, ninguém devia viver contando os urubus da própria arquibancada. Só que essa teoria rachou no dia em que um desses urubus desceu de verdade. Jogo que só sobrevive porque ninguém chegou perto o suficiente pra roubar não é jogo — é sorte com prazo de validade.
Depois daquele dia, voltei pra arquibancada outras tardes, mas já não sentava do mesmo jeito. O que era hipótese virou lembrança guardada embaixo das costelas, e lembrança não se desarma com argumento bem construído. Imaginar que um urubu podia descer era exercício mental qualquer, distante, quase divertido de levar numa conversa de bar; ter visto um descer de verdade mudou o que meus olhos procuram antes mesmo de eu decidir procurar alguma coisa. A memória faz isso sem pedir licença: reorganiza sozinha o que passa a chamar atenção. E o que chamou a minha atenção, dali em diante, foi exatamente o que eu nunca tinha olhado antes — quem estava sentado ali, e por quê.
Tem uma cadeira específica que eu não esqueço mais: a de quem ficava ali, de boné puxado, rindo baixinho de um jeito só meu de notar, perguntando como tinha sido meu fim de semana só pra manter a conversa viva — e nunca dividiu comigo uma corrida sequer, uma falta sequer, um minuto de cansaço em campo. Isso dói mais do que a traição em si: descobrir que existia alguém assistindo aquilo tudo de uma distância segura. Quem fica na arquibancada não corre, não sua, não leva falta, e enxerga o que quem está em campo não consegue ver — a posição errada, o pé que atrasa, o instante exato em que a defesa abre buraco. Essa pessoa não tinha lugar legítimo dentro daquela história, e mesmo assim ficava ali, comentando o jogo com quem quisesse ouvir. Na hora em que a rachadura apareceu e a vulnerabilidade ficou exposta pra qualquer um ver, ela desceu — sentada exatamente para aquilo, velando o que ainda respirava.
Desde aquela tarde, comecei a jogar com o pescoço virado pra trás — virava o rosto no meio do lance só pra checar quem estava sentado na curva. Essa marca ficou mais funda do que a própria traição, e levei tempo pra admitir isso em voz alta. Não era mais sobre confiar ou não numa pessoa específica: virou desconfiança da própria plateia, de intenção não dita, de gente que frequenta uma amizade já calculando o dia em que ela vai rachar. Depois que uma experiência dessas entra pra memória, a inocência do convívio perde a naturalidade que tinha antes — ninguém mais deita numa arquibancada sem contar, de relance, quantas pessoas estão sentadas atrás.
Comecei a recusar convite pra churrasco de gente nova sem nem reparar que estava fazendo isso. Não é arrogância, nem birra, nem aquela ideia de ser melhor que ninguém — é cansaço adiantado, o cansaço de quem já chega sabendo que vai gastar metade da noite de olho em quem está sentado mais alto. Conhecer gente exige uma fé mínima na boa intenção de quem chega: acreditar que nem toda aproximação esconde um segundo motivo, que nem toda conversa quer ocupar um espaço que não é dela, que nem toda presença está ali torcendo por uma vaga que ainda não abriu. Depois de ver um urubu descer de verdade, não dá mais pra oferecer essa fé sem pensar duas vezes.
Numa arquibancada pequena, onde todo mundo já sentou em toda fileira pelo menos uma vez, isso fica ainda mais embaçado. Entre homens gays, pelo menos no que vivi e observei de perto, amizade, atração, companhia e desejo se misturam sem linha divisória: quem hoje só assiste já jogou antes, quem está em campo agora já assistiu outras vezes, e ninguém fica preso a um lugar só. Não quero dizer que toda amizade esconda desejo, nem que toda aproximação mereça desconfiança. Só que depois de ver uma aproximação de aparência inocente virar outra coisa, a linha que separava as duas coisas não existe mais do mesmo jeito. O olho passa a catar sinal que antes nem registrava — não por gosto de achar problema, mas por já ter achado um.
Fico ali, no banco, repetindo pra mim mesmo um argumento que eu sei de cor e que não resolve nada. Racionalmente, sei que vigiar fileira não impede ladrão nenhum: quem quiser descer vai descer, e ficar de olho pra cima só me tira do lance que está rolando na minha frente. Sei que a maioria de quem está sentado ali passa o fim de tarde sem plano nenhum na cabeça. Sei que amizade de verdade existe, e tenho as minhas, bem guardadas. Entender uma coisa e sentir essa mesma coisa são dois exercícios diferentes, que raramente caminham no mesmo compasso. O que aconteceu uma vez ensina lição que a razão não apaga por completo — fica de reflexo, acionando dúvida mesmo sem prova nenhuma pra sustentar.
Já não é sobre quem desceu aquela vez — isso ficou resolvido ou não, já nem importa tanto. O que fica é a dificuldade de olhar pra uma aproximação nova sem perguntar, num canto qualquer da cabeça, o que essa pessoa espera encontrar ali sentada. Essa pergunta gruda nos encontros até a distância deixar de ser só proteção e virar outra língua, uma que só eu entendo. Ainda sento na ponta da arquibancada, longe da fileira de cima, com o mesmo céu dourado escorrendo atrás das árvores — só que agora reparo em cada urubu que pousa por perto antes de reparar no jogo. A confiança, depois do que já desceu uma vez daquela fileira, não sabe mais voltar sozinha pro lugar de onde nunca devia ter saído.
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