Acontece quase sempre de madrugada, no degrau do quintal, com a casa apagada atrás de mim e o barulho do ventilador vindo lá de dentro. É a única hora em que ninguém precisa de nada, e é nessa hora que a névoa abre. Dura pouco, um ou dois minutos, o tempo de as preocupações baixarem o suficiente para eu conseguir olhar para a própria vida sem estar completamente dentro dela. Nesses instantes eu vejo o mapa inteiro: onde estou, os caminhos que percorri, as escolhas que fiz, até alguma direção possível para seguir. Depois fecha. Um pensamento qualquer me tira da rota, o corpo lembra que amanhã tem trabalho, e quando percebo já estou de novo tateando, tentando descobrir em que ponto do caminho eu tinha parado.
De dia é o contrário. Alguém segura meu braço no corredor, abre um sorriso, diz que eu sumi, e pergunta como eu estou. Perguntam das novidades, das histórias, das coisas que aconteceram enquanto estive longe — e a minha boca responde antes de mim, alguma coisa curta, alguma coisa educada. A vontade real seria dizer que não sei. Não é falta de resposta elaborada. Eu realmente não sei.
Porque existe uma diferença entre viver algo e entender o que foi vivido.
Quem vai embora e depois volta costuma trazer histórias, e numa mesa cheia todo mundo espera a sua vez de contar a dele. Mas o que fazer quando algumas das histórias mais felizes se tornam justamente as mais difíceis de revisitar? O que fazer quando certas lembranças produzem mais saudade do que alegria? O que fazer com os traumas adquiridos no caminho, com as palavras que ficaram presas na garganta, com os posicionamentos que nunca aconteceram porque, naquele momento, pareciam apenas mais uma faísca num incêndio já fora de controle?
Pessoas morreram.
Uma delas literalmente.
Outras morreram de um jeito diferente. Deixaram de existir na minha vida. Algumas porque foram embora. Outras porque eu finalmente aceitei que já tinham ido muito antes de admitir isso para mim mesmo.
Talvez seja por isso que minhas histórias tenham ficado enevoadas.
Não porque eu as tenha esquecido — eu sei o dia da semana de cada uma delas, sei a roupa, sei a hora. Estão todas ali, inteiras, e é justamente esse o trabalho. Cansei de carregá-las para todos os lugares, de levar aquilo para o almoço, para a fila, para a conversa de corredor. Existe uma expectativa silenciosa de que quem viveu alguma coisa importante precise transformá-la em narrativa: contar, explicar, organizar os acontecimentos para consumo dos outros. Nem sempre funciona assim.
Às vezes a pergunta chega na fila do café, com dois minutos disponíveis, e a resposta honesta exigiria horas — eu não tenho mais essa disposição, e nem seria o lugar. Mas existe outro lado nesse silêncio que eu carrego, e é o lado que eu levei mais tempo para entender. Não é só cansaço. Não é só desinteresse. É proteção.
Já aconteceu de eu contar tudo para alguém, uma vez, numa noite dessas, e depois passar a madrugada inteira acordado com o teto na frente dos olhos. Porque quando eu começo a falar, a névoa se dissipa e tudo volta a ficar nítido — e nítido é presença, não memória. O que estava guardado reaparece. O que parecia distante se aproxima outra vez. E eu não sei se estou pronto para revisitar tudo com a mesma intensidade com que vivi.
Então economizo palavras.
Escolho respostas curtas.
Desvio dos detalhes.
Não por falta de histórias, mas por excesso delas.
Porque algumas ainda pesam. Algumas ainda doem. Algumas ainda não encontraram um lugar definitivo dentro de mim. Talvez um dia encontrem — talvez numa dessas madrugadas, sentado no mesmo degrau, a névoa abra e não feche tão rápido, e eu consiga olhar para tudo aquilo sem precisar desviar. Por enquanto, entender já parece trabalho suficiente. E talvez esteja tudo bem assim, porque nem toda história precisa ser contada para existir. Algumas apenas precisam de tempo para deixar de doer.
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