Era só um sorvete, guardado no congelador com meu nome escrito nele do jeito invisível que a gente usa pra marcar coisa que acha óbvia demais pra precisar de aviso. Ele tinha o pote dele. Quis o meu. Não ligou perguntando, não bateu antes na porta do meu desejo — foi direto, abriu a tampa, resolveu sozinho uma vontade que também tinha dono. Deixou o dele no lugar do meu, como quem troca uma moeda por outra sem conferir o câmbio, sem imaginar que a moeda que ficou já tinha sido gasta antes, no mesmo sabor, na mesma boca.
Guardei a colher suja na pia e fiquei ali, parado, pensando que não era fome nenhuma o que ele tinha acabado de resolver — era aquela mesma certeza de sempre, a de que minha resposta não ia travar ele em nada, não travou da primeira vez que a pergunta pesava de verdade, não ia travar agora, numa sobremesa qualquer de terça-feira. Falei isso a ele do jeito que se mostra escada: um degrau pequeno primeiro, depois o mesmo degrau mais alto, pra ele enxergar que é a mesma subida. Quem pega sorvete sem perguntar pega o resto sem perguntar também.
Ele não quis subir a escada comigo. Segurou no primeiro degrau com as duas mãos e fingiu que a escada parava bem ali. Me ofereceu um balde de sorvete inteiro, como quem tampa buraco com doce, como se fartura resolvesse o que era, na verdade, uma pergunta que nunca foi feita. Não falta fome nessa casa. Falta é licença, que ele nunca pede antes de pegar o que quer. E balde nenhum compra de volta o instante em que ele podia ter perguntado e escolheu, sozinho, não perguntar.
Depois veio o decreto, que eu reconheço porque já apareceu antes, só que com outra roupa: as águas passaram, o assunto tá encerrado, não se toca mais nisso. Ninguém votou. Ninguém foi consultado. Ele trancou a porta do lado dele e anunciou que a casa inteira estava trancada — o mesmo gesto do sorvete, agora virado pro tempo, pra minha dor, pra minha licença de continuar sentindo o que ainda sinto. Decidir sozinho o que fazer com o desejo e decidir sozinho quando a dor do outro deve acabar é a mesma mão fazendo o mesmo gesto — só muda o que ela agarra dessa vez.
E fico eu catando nas frestas alguma prova de que mudou alguma coisa de verdade — não a palavra dele, que eu já gastei de tanto ouvir, mas o gesto, o cheque, algo que dê pra tocar com a mão. Pergunto e a resposta que volta nunca é suficiente. Olho pra ele e vejo o mesmo homem que pega o que quer sem bater antes, agora jurando que a porta virou outra porta. Balde de sorvete não prova nada. Prova é perguntar antes de abrir o pote. Prova é, pela primeira vez na vida dele, esperar minha resposta antes de agir.
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