O preço de nunca baixar a guarda

Numa noite, anos atrás, a casa foi arrombada — e desde então eu faço a ronda. Não escolhi isso, ninguém me nomeou: o turno começou sozinho naquela madrugada e nunca mais teve fim, porque nunca apareceu ninguém para render. Isso deixa marca, e certas marcas não doem só: elas montam guarda. Tem gente que fecha a porta da experiência no mesmo instante em que ela termina — a discussão se resolve, a separação se assina, a mentira cai, a traição aparece — e no dia seguinte já estão de novo na rua, trabalhando, saindo de casa, cumprindo a agenda, sem carregar peso nenhum atrás dos olhos. Eu não fechei nada. A minha arrombaram uma vez só, e desde aquela noite é como se o acontecimento morasse comigo, de aluguel pago, na forma como eu olho pela janela antes de dormir.

No começo o turno até parecia sensato. Eu me repetia isso bem cedo, enquanto reparava numa pausa longa demais no meio de uma frase ou num atraso de cinco minutos pra responder mensagem: fazia sentido prestar atenção depois de uma decepção daquele tamanho, aprender a ler comportamento, pegar sinal que antes passava batido. Chamei isso de inteligência emocional por um bom tempo. Chamei de maturidade, de lição aprendida, de gente que não cai duas vezes no mesmo buraco. O problema é que minha cabeça nunca soube onde parar o relógio do plantão: o mecanismo que eu montei pra proteger uma noite só foi ocupando, sem bater, todas as outras.

Minha ronda parou de precisar de barulho pra começar — hoje ela anda sozinha, estalo nenhum necessário. Meu olho aprendeu a caçar incoerência onde talvez não haja nenhuma: um silêncio comum vira enigma, uma ausência de uma tarde vira suspeita, uma mudança pequena no jeito de alguém falar vira caso pra investigar. Já não pergunto só o que está acontecendo; investigo tudo o que poderia estar. E isso cansa de um jeito que ninguém vê, porque minha vigilância não bate ponto só quando existe perigo de verdade — ela trabalha em conversa boba, em momento de afeto, em situação que devia ser simples de viver. Enquanto a vida acontece na sala, lá vou eu, uma parte de mim, andando pelo corredor, conferindo fechadura, puxando cortina, testando trinco que já testei hoje de manhã.

Ninguém vê as olheiras de quem não dorme direito há anos quando olha pra mim e diz que pareço forte, atento, preparado, de prontidão. Esse estado de alerta cobra aluguel todo mês: leva embora um pouco de espontaneidade, um pouco de descanso, um pouco de leveza, sem dar recibo. Sem perceber, troquei proteção por prisão: pus grade em janela que não precisava de grade, grade essa que já não sei mais tirar. E grade resolve um problema abrindo outro — trava ladrão e trava abraço, impede uma invasão e atrapalha uma aproximação, ajuda a sobreviver sem ajudar a viver. Quem está de plantão não senta à mesa direito; fica de pé, perto da porta, de olho na rua, comendo depressa.

Confiar ficou difícil depois disso — não porque a vontade de confiar tenha ido embora (ela continua do mesmo tamanho de sempre, quase do mesmo jeito bobo e aberto de antes), mas porque sumiu a sensação de segurança que deixava a confiança acontecer sozinha, sem escolta. Desejo proximidade desconfiando dela. Busco um encontro já contando os passos até a despedida. Construo vínculo de olho na porta, conferindo se ainda está destrancada, se dá pra sair rápido se precisar. É uma contradição que cansa: o afeto pede presença inteira, a vigília pede cálculo o tempo todo — um me chama pra sala, o outro me deixa plantado no corredor, fazendo conta.

Com os anos fui convivendo tanto com esse plantão que ele parou de parecer consequência de uma noite só e passou a parecer traço meu, de nascença quase. Troquei o nome dele várias vezes: chamei de prudência, chamei de experiência, chamei de ter amadurecido. Mas basta eu olhar pro cansaço que carrego atrás dos olhos pra saber que alguma coisa continua fora do lugar — viver esperando o próximo arrombamento gasta uma energia enorme, energia que eu já não uso pra criar nada, pra sonhar, pra construir, pra simplesmente estar no presente sem transformar ele em hipótese de crime.

Carrego um cansaço que ninguém comenta muito, uma tragédia pequena da vida adulta: a de que certa dor não deixa só mais forte, deixa também mais cansado — e esse cansaço não chega com estardalhaço nenhum. Chega devagar, nas relações que nunca afundam de verdade por mais que eu queira, nos afetos que esbarram numa parede que ninguém vê, nas amizades que ficam só na superfície porque não deixo irem mais fundo, nas noites maldormidas remoendo cena que já devia estar arquivada há anos, trancada, com a luz apagada.

Porque sobreviver a uma ferida é uma coisa. Continuar vivendo como se ela estivesse acontecendo agora, nesta mesma noite, é outra, completamente diferente. O maior desgaste, no fim, quase nunca vem do arrombamento em si — vem do turno que começou naquela madrugada e que, até hoje, ninguém teve coragem de encerrar. Nem eu.

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