Eu digo "com licença" ao atravessar salas onde não há ninguém no meu caminho. Percebi outro dia, no corredor do trabalho: falei para o ar, para uma cadeira vazia encostada na parede, e segui andando de lado, o ombro encolhido, como quem passa por um vão apertado que não estava apertado. Ninguém me ensinou isso numa aula; fui aprendendo sozinho, do jeito que se aprende a desviar de um móvel que já não está mais ali, mas o corpo continua lembrando onde ele ficava. Seria fácil chamar isso de educação. Não é, ou não é só: em algum lugar aprendi que ocupar espaço custava caro, e o ombro encolhido do corredor virou um jeito de pagar adiantado — peço licença antes de uma opinião que ninguém cobrou, visto a frase de lixa antes que ela saia da boca, deixando as pontas arredondadas para não arranhar ninguém, e peço um copo d'água como quem pede desculpa por ter sede. Nem sempre veio de uma violência grande. Veio do menino chamado de sensível demais com o prato ainda cheio na mesa; veio do adolescente que, ao abrir a boca para dizer o que sentia, via a conversa inteira mudar de assunto; veio do adulto que ouviu tantas vezes "você está exagerando" até passar a medir a própria dor com a régua dos outros antes de acreditar nela. Aprendi a ficar assim: inteiro na sala, mas ocupando cada vez menos dela.
Esse jeito de andar de lado não ficou no corredor do trabalho. Ele pegou carona comigo até em casa, até na mesa do jantar com os amigos, até debaixo do lençol com quem eu amo. Antes de dizer que uma coisa me machucou, já estou procurando o motivo que justifique eu ter sentido aquilo — como quem monta a defesa antes de ser acusado de alguma coisa. Seguro a vontade de interromper alguém no meio de uma frase, mesmo sabendo que, se eu não interromper agora, o que eu tinha para dizer morre ali, sem ninguém notar o enterro. Peço uma coisa simples — que abram a janela, que me esperem cinco minutos, que repitam uma frase que não entendi — e sinto o corpo inteiro se encolher, como se o pedido ocupasse metros quadrados demais da sala. Cada vontade minha bate numa porta por dentro antes de sair pela boca — espera, pede licença de novo, só depois entra na sala onde moram as palavras que eu de fato digo, quando digo.
Deito de madrugada ensaiando uma conversa que ainda nem aconteceu, trocando as palavras de lugar feito quem arruma móvel de sala que já está arrumada, só para o caso de doer menos quando a hora chegar de verdade. Ninguém mais precisa me negar licença nenhuma a essa altura: eu já aprendi a negar por dentro, antes que alguém tenha chance de fazer isso por fora. Pergunto a mim mesmo se aquilo realmente me incomoda, se não estou sendo exigente demais, reviso a cena inteira outra vez, com o teto branco em cima de mim fazendo o papel de testemunha muda. Já não é a reação do outro que eu temo enfrentar pela manhã. É essa dúvida funda, a de não saber se eu tenho mesmo o direito de existir sem pedir desculpa por isso.
Teve época em que o corredor ficou ainda mais estreito: veio de uma decepção, de uma rejeição, de um abandono, de uma confiança quebrada de um jeito que nenhuma desculpa resolve — dessas que não doem só na hora, mas mexem com algo mais fundo, com a sensação de ter lugar no mundo, e mudam o tamanho da porta por onde eu passo dali em diante. Lembro de ficar deitado, com a ferida ainda aberta, e pela primeira vez a pergunta que me ocorreu não foi por que aquilo tinha acontecido comigo. Foi se eu tinha mesmo o direito de ter esperado outra coisa. É uma virada pequena, quase impossível de perceber no instante em que acontece, mas é ela que transforma uma violência sofrida em prova contra mim mesmo. O que aconteceu deixa de ser o problema; o problema passa a ser a suspeita que fica, feito poeira grudada na roupa, de ter desejado demais, confiado demais, ocupado um espaço que talvez nunca tenha sido meu de verdade.
De fora, pareço funcionar normal: vou trabalhar, estudo o que tenho que estudar, mantenho as relações de pé, cumpro as obrigações da lista, sigo andando — carregando por dentro uma sensação de ter encolhido de vez. E faço a mesma conta o dia inteiro, em silêncio, enquanto lavo a louça ou dirijo até o trabalho. Quanto posso mostrar? Quanto posso pedir? Quanto posso esperar sem que isso pese contra mim depois? Vou vivendo dentro de margens cada vez mais estreitas, cada vez mais parecidas com o corredor onde tudo isso começou, até que aquilo que nasceu como proteção — uma espécie de armadura fina — vira simplesmente o meu jeito de ser.
Nem eu mesmo percebi o dia em que isso começou — porque não houve um dia. Houve um silêncio engolido numa festa de aniversário, uma conversa evitada no corredor de casa, um pedido de aumento adiado três vezes até virar vergonha só de pensar nele, uma vontade de dizer não que ficou presa atrás dos dentes feito espinha de peixe. Nenhuma dessas coisas, sozinha, parecia motivo de nada. Juntas, formaram o hábito. E quando finalmente ficou visível — quando notei, naquele corredor do trabalho, a cadeira vazia recebendo meu pedido de licença —, eu já tinha me acostumado havia tempo a atravessar toda sala de lado.
Tento, hoje, uma coisa pequena: dizer que uma festa me cansou sem emendar um pedido de desculpas na frase seguinte. Às vezes consigo. Às vezes a desculpa sai antes que eu perceba, treinada demais para ficar de fora. Mas é nesse treino torto que vou entendendo que crescer, talvez, tenha menos a ver com conquistar espaço novo e mais com ir buscar de volta o que ficou pelo caminho, feito objeto esquecido em casa antiga. Recuperar o direito de dizer o que sinto sem que isso vire culpa no minuto seguinte. Recuperar a chance de pôr um limite sem me sentir empurrando alguém escada abaixo. Recuperar a liberdade de desejar, de discordar, de simplesmente existir, sem o compromisso permanente de deixar a minha presença confortável para todo mundo ao redor.
Queria poder atravessar uma sala vazia sem dizer nada a ninguém — sem o "com licença" saindo da boca para um móvel, para o ar, para ninguém. Porque ocupar espaço nunca foi sobre ser o centro de coisa alguma; é bem mais simples do que isso: é a vida não precisando de assinatura de ninguém embaixo para ter permissão de acontecer. E acho que poucas perdas doem tão fundo quanto essa: passar anos tão preocupado em não incomodar que, um dia, eu já não sei mais onde a prudência terminou e onde começou a desaparecer de mim mesmo — de vez, feito quem passa a vida inteira atravessando o próprio corredor de casa sem nunca mais pisar bem no meio dele.
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