Todas as noites eu preciso me deitar no mesmo colchão.
É uma frase simples. Tão simples que, pra qualquer pessoa de fora, deve parecer irrelevante — colchão é colchão, lugar de dormir, objeto banal que existe em toda casa. Só que esse aqui não é nosso: é dele, comprado sozinho, numa época em que ele morava sozinho e trazia pra aquele quarto quem bem entendesse. Não fui eu quem testou a firmeza dele numa loja. Quem deitou ali antes de mim foram as putas que ele levou pra casa dele, uma atrás da outra, sem que isso parecesse pesar nada pra ele. E ele nunca parou pra pensar no que significa, pra mim, ter que deitar todas as noites em cima disso. Um colchão não vira só um colchão de uma hora pra outra. Vira depois que alguém usa ele pra guardar o que não devia.
O que me revolta não é só o que aconteceu. É que gente entrou numa história que não era dela, pegou exatamente o que veio buscar, e foi embora. O desejo que queria. A validação que queria. A excitação, o sexo, tudo que veio buscar. Pegou o momento, gastou o momento, seguiu a vida. Talvez nem lembre mais. Talvez nunca mais tenha pensado nisso. Talvez esteja ocupada com outra gente, outra cama, outra distração qualquer. Enquanto isso eu sigo aqui, no mesmo lugar, com o mesmo colchão debaixo das costas.
Passar por um lugar e continuar morando nele depois são coisas de tamanho completamente diferente.
Porque quem atravessa uma história carrega só a parte que lhe interessa. Quem fica herda o resto inteiro.
Tem dia que tento me convencer de que estou exagerando. De que já passou tempo suficiente. De que não deveria sentir tanta raiva assim. De que maturidade é aceitar, entender, seguir em frente. Aí chega a noite — e a noite tem uma capacidade cruel de devolver as coisas ao tamanho real delas. De dia é fácil falar em superação, com tarefa, compromisso e distração enchendo a cabeça. Difícil é apagar certas imagens na hora em que tudo cala e o corpo encontra, sozinho, a mesma cova de sempre no colchão.
O que ninguém parece entender é isto: teve gente que pegou o que veio buscar e foi embora. Eu fiquei pra conviver com os vestígios.
E sinto raiva disso.
Uma raiva feia.
Uma raiva sem nada de nobre.
Uma raiva que não produz crescimento nenhum, nem sabedoria, nem nenhuma dessas lições bonitas que a gente gosta de garimpar dentro do sofrimento.
Sinto raiva porque elas pegaram o momento que queriam e sumiram. Sinto raiva porque ele resolveu oferecer a elas o que achou que valia a pena oferecer. Sinto raiva porque todo mundo seguiu a vida enquanto eu fiquei encarregado da conta. Porque, no fim, ninguém voltou pra recolher o que deixou pra trás — ninguém voltou nem pra ajudar a carregar o colchão escada acima.
A conta ficou comigo.
E tem algo profundamente humilhante nisso.
Porque não basta lidar com a descoberta. Não basta lidar com a confiança quebrada. Não basta lidar com reconstruir a própria leitura da realidade. Tem ainda a expectativa de normalidade: a de que, depois de um tempo, eu simplesmente volte a deitar, feche o olho e durma. Como se certas coisas não tivessem acontecido. Como se certas imagens não aparecessem sem convite nenhum. Como se o corpo obedecesse à razão. Como se bastasse decidir seguir em frente pra que o resto acompanhasse a decisão.
Mas algumas noites não funcionam assim.
Tem noite que eu olho pra aquele espaço e não vejo só um colchão. Vejo a lembrança de tudo que foi feito em cima dele. Vejo a facilidade com que certa gente entrou e saiu dessa história. Vejo a liberdade que tiveram de buscar o que queriam sem carregar o peso que veio depois. E sinto um cansaço enorme de ser o único obrigado a continuar deitando ali.
Porque elas não precisam.
Ele não precisa do mesmo jeito.
Quem veio levou o que queria e foi embora.
Quem ficou sou eu.
Talvez seja essa a parte mais difícil de engolir. Não o passado em si. Não o fato de ter acontecido. Mas a distribuição absurda das consequências: um lado recebeu prazer, desejo, validação, novidade — e eu recebi a tarefa de aprender a dormir entre os escombros.
Por isso, às vezes, não sinto tristeza.
Não sinto saudade.
Não sinto sequer vontade de compreender.
Sinto ódio.
Ódio de ter herdado uma destruição que não construí.
Ódio de conviver todo santo dia com vestígio que eu nunca escolhi deixar entrar.
Ódio de ver que teve gente que pôde simplesmente consumir o que queria e sumir, enquanto eu sigo aqui, anos depois, tentando achar um jeito de habitar um lugar que já não enxergo com os mesmos olhos.
E a verdade mais honesta é essa: certas feridas não continuam abertas porque ainda exista amor.
Continuam abertas porque certa injustiça continua parecendo injusta.
Porque teve gente que recebeu exatamente o que veio buscar.
E foi embora.
Enquanto outra gente ficou pra dormir entre os escombros.
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