Achei um caderno meu que para no meio de uma frase. A letra segue firme até a metade da página e simplesmente acaba, sem ponto final, sem aviso, sem nada escrito depois — e a folha seguinte continua em branco desde então, amarelando sozinha dentro da gaveta. Não houve decisão nenhuma naquele dia, eu sei porque procurei na memória e não achei: fechei o caderno sem ele ter me avisado que era a última vez, e nunca mais abri. Reparei, segurando aquilo nas mãos, que eu sei reconhecer quando uma relação termina, quando alguém vai embora, quando uma fase anuncia o próprio fim — são perdas com data, com marco, com um dedo que a gente consegue apontar e dizer foi ali. O que eu não sei reconhecer no momento em que acontece é isto: a perda que não tem despedida nenhuma, que não deixa página rasgada nem carta de aviso. Um dia, sem eu notar, alguma coisa em mim emudeceu. Um hábito meu parou de existir. Um entusiasmo meu foi abandonado na metade, igual à frase do caderno. Um jeito meu de olhar pro mundo ficou pelo caminho, e eu só descubro o tamanho disso muito depois, quando tento voltar a um lugar de dentro de mim que, sem aviso, já não existe mais.
Contam a vida adulta sempre como construção — eu também construí carreira, identidade, rotina, um projeto de futuro que cabia numa frase de currículo. Só que existe um movimento que corre por baixo desse e quase ninguém repara: enquanto eu construía uma coisa, outra ia sendo abandonada ao mesmo tempo, sem que eu escolhesse, só pelo desgaste mesmo de estar vivo. Eu era a pessoa que passava horas lendo sobre qualquer assunto só por curiosidade. Era a que escrevia sem pensar em resultado nenhum. A que acreditava fácil, sem pedir prova. A que fazia plano sem calcular cada risco antes. Nenhuma dessas versões minhas somou de uma vez: foram ficando menores, mais caladas, mais difíceis de achar, até o dia em que eu não soube mais onde ir procurá-las dentro de mim.
Parte dessas perdas eu aceito como preço do amadurecer: algumas ingenuidades minhas precisavam mesmo partir pra abrir espaço pra outro jeito de entender as coisas. Só que nem tudo que desapareceu em mim merecia ter desaparecido. Tenho sensibilidade que me faz falta até hoje, entusiasmo que nunca achou substituto, confiança que nunca voltou a ser do tamanho que era antes. Algumas dessas coisas eu não troquei por nada melhor: perdi, sem troca nenhuma. A vida segue, versões novas vão surgindo, camadas novas vão se empilhando por cima — e isso não quer dizer que toda ausência minha tenha sido compensada. Às vezes o que existe não é substituição. É adaptação.
Certas lembranças me dão uma sensação que eu não sei bem nomear. Nem sempre é saudade de uma pessoa, de um lugar ou de uma época: muita vez é saudade da versão de mim que existia dentro daquele contexto. Eu, que ainda não carregava certas decepções. Eu, que ainda não conhecia certas verdades. Eu, que ainda não precisava interpretar silêncio, medir risco, reconstruir a própria sensação de segurança do zero. Na maioria das vezes o que eu sinto saudade não é do passado: é de quem eu era dentro dele. E existe uma melancolia específica nisso — perceber que aquela pessoa continua viva na minha memória e já não consegue existir do mesmo jeito na realidade.
Essas ausências minhas sempre se revelam por detalhe pequeno. Uma foto antiga. Uma conversa que eu tinha esquecido. Uma música que volta depois de anos. Meu caderno no fundo da gaveta, com a letra que para no meio da frase. De repente eu encontro, de frente, alguém que eu já fui, e vem o estranhamento — não porque aquela versão estivesse certa ou errada, mas porque ela habitava o mundo de um jeito que eu já não sei reproduzir. Como se pertencesse a outra vida, e no entanto foi a minha.
Mesmo assim, minha vida continua exigindo movimento. Versões novas de mim vão aparecendo, experiências novas vão se acumulando, e algumas delas são mais fortes, mais conscientes, mais preparadas pra encarar o que a realidade cobra. Isso não apaga a verdade de que toda transformação cobra perda. Crescer não é só acumular experiência: é aceitar que cada etapa que eu atravesso deixa pra trás um pedaço que eu nunca mais recupero por inteiro.
Minha maturidade talvez tenha menos a ver com virar alguém melhor e mais com aprender a conviver com essas ausências. É reconhecer que nenhuma identidade minha fica intacta, que eu estou o tempo todo me tornando e deixando de ser, que a pessoa que eu sou hoje carrega fragmento de muitas outras que já sumiram pelo caminho. E a coisa mais humana que existe é isto: seguir em frente carregando o eco dessas versões minhas que se perderam, sabendo que elas não voltam, e entendendo que continuam ajudando a explicar quem eu me tornei — como uma frase interrompida que, mesmo sem ponto final, ainda diz alguma coisa sobre quem estava escrevendo.
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