Tem um degrau gasto no meio em toda casa velha, e ninguém sabe dizer em que ano ele afundou. Foi pé, foi chuva, foi tempo — foi tudo isso e não foi nada em particular. É assim que terminam quase todas as relações que eu vi terminar: não na hora exata em que deviam terminar, mas muito depois, arrastando-se mais um tempo. Às vezes meses. Às vezes anos. Não porque ainda estivessem funcionando, mas porque ninguém reparou no dia em que pararam de funcionar.
Procurei o dia depois e não achei dia nenhum. Não houve conversa definitiva, briga histórica, episódio que explicasse tudo sozinho e desse à coisa um começo, um meio e um fim decentes de contar. Houve acúmulo. Uma decepção numa terça à toa. Um silêncio de textura estranha no meio de um jantar comum. Uma conversa que já não sai como saía e que ninguém comenta para não estragar a noite. E, por baixo, a impressão incômoda de que alguma coisa mudou de lugar dentro da casa sem que se consiga apontar o quê, nem quando, nem quem mudou.
Não ter data é o que não deixa fechar.
Já vi terminar do outro jeito também, com hora marcada, frase dita e porta, e por pior que seja sobra ao menos o que entender: há um dia no calendário para onde apontar o dedo. Quando a coisa se gasta devagar, o que sobra é dúvida, e dúvida não fecha nunca. Você continua ali, e já não do mesmo jeito. A pessoa continua ali também, tomando café na sua frente, perguntando se você quer pão. Só que o vínculo perdeu uma peça em algum ponto do caminho, e nenhum dos dois sabe dizer que peça era nem em que quilômetro ela caiu do bolso.
Primeiro chega o cansaço, e ele não tem cara de rejeição nem de falta de amor. É outra coisa.
É o cansaço de quem passa a calcular. De quem ensaia a frase antes de dizer a frase. De quem pendura uma explicação extra no fim de cada assunto banal para que ele não desande. De quem vê o desencontro virar regra e deixar de ser exceção. Um dia se percebe que se gasta mais tempo mantendo a relação de pé do que vivendo dentro dela — como quem mora numa casa e passa todo domingo consertando a casa, e no fim do ano não lembra de ter morado, só de ter consertado.
Dá para dividir a mesma casa e não se encontrar. Nem toda proximidade é presença, e eu levei tempo demais para entender isso.
Curte a foto. Responde o story. Manda o feliz aniversário no horário exato, todo ano. Há gente que continua ocupando espaço muito depois de ter deixado de participar: a amizade existe no papel, o afeto existe na lembrança de uma época que foi boa mesmo, e ninguém ali está fingindo coisa alguma. Mas alguma coisa essencial saiu da sala anos atrás, sem fazer barulho ao sair, e os dois sabem, e nenhum dos dois diz.
E há quem passe semanas sem mandar uma palavra e apareça no dia exato. A rotina muda, os horários não batem, os encontros rareiam até virarem raridade. Mesmo assim, quando a vida acontece de verdade — quando desaba, quando dá certo, quando não se sabe o que fazer com uma notícia que acabou de chegar —, essas pessoas já estão ali, antes de serem chamadas. Não é a distância que decide. Nunca foi.
Fiz essa conta devagar e ela fica clara com os anos. Só que ela não serve apenas para olhar os outros.
Também cansei gente, e essa parte custa bem mais para escrever. Deixei áudio sem escutar. Não apareci onde devia ter aparecido. Não respondi porque estava afundado numa coisa minha e achei que dava para explicar depois — e depois é um lugar que não existe, nunca existiu, ninguém nunca chegou lá. Falhei. Não fui tão disponível quanto gosto de acreditar que fui. Crescer passa um pouco por aqui: admitir o próprio tamanho sem transformar toda crítica em acusação nem toda falha em tragédia.
Tem amizade que aguenta seis meses de silêncio e volta exatamente de onde parou, sem cobrança, sem aquele sumiu, hein que vem rindo mas cobra. Não é que alguém tenha lutado desesperadamente para segurar — quem segura com força já perdeu. É que ela consegue existir sem esse esforço todo. Ninguém precisa convencer ninguém a ficar. Ninguém precisa se ajustar o tempo inteiro para continuar pertencendo. O vínculo acha sozinho o próprio lugar e fica ali, quieto, funcionando sem manutenção, como as coisas de casa que nunca quebraram e de que por isso ninguém lembra. E chega uma idade em que parar de tentar manter todo mundo por perto deixa de parecer derrota — até porque isso nunca foi possível, para ninguém, em tempo nenhum.
Uma hora a mão se fecha em torno de menos coisas e aperta melhor. Cuidar do que ainda tem sentido. Do que continua vivo. Do que existe sem precisar ser arrastado pelo braço até a mesa. O resto vai ficando pelo caminho, cedo ou tarde, quase sempre sem aviso — sem briga, sem carta, sem explicação. As pessoas raramente vão embora com estrondo. Elas vão indo.
Uma peneira trabalha assim: sacode devagar, sem pedir licença, enquanto a gente está ocupado olhando para o outro lado. E no fim do movimento o que fica quase nunca é o que fez mais barulho. É o que continuou ali depois que o barulho passou.
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