Quando a memória incomoda mais do que a dor

Tem dias em que a vontade parece simples — e, ao mesmo tempo, impraticável: esquecer. Não no sentido leve de deixar pra lá, mas de apagar mesmo, como se fosse possível desligar a memória e, junto com ela, levar embora tudo o que ainda pulsa. As dores, as mágoas, as decepções, os fragmentos que continuam voltando mesmo depois de todas as tentativas de seguir em frente. Porque lembrar cansa de um jeito específico. Cansa ter acesso fácil ao que ainda atravessa. Cansa perceber que o entendimento chega antes da digestão, que a cabeça até organiza, racionaliza, dá nome — mas o corpo demora mais, guarda mais, devolve sem aviso.

E esse desejo de esquecer, às vezes, não nasce só de dentro. Ele também aparece no olhar do outro, mesmo que não seja dito com todas as letras. Como se a memória fosse um incômodo a ser resolvido, não uma consequência a ser sustentada. Como se fosse mais fácil conviver com alguém que não lembra do que com alguém que ainda sente. E isso desloca tudo, porque deixa de ser apenas sobre dor e passa a ser sobre o lugar que essa dor ocupa na relação. Existe uma diferença grande entre querer aliviar o sofrimento de alguém e desejar que ele desapareça para que a situação se torne mais confortável. Uma coisa implica cuidado. A outra, em muitos casos, implica apagamento.

Fica então uma dúvida que não é simples de resolver: o impulso de esquecer vem mais de quem sente ou de quem não quer mais lidar com o que provocou? Em alguns momentos, parece dividido. Há um cansaço legítimo de carregar algo que pesa, ao mesmo tempo em que existe, do outro lado, uma pressa silenciosa para que aquilo deixe de existir — não porque foi elaborado, mas porque incomoda. Só que esquecer, nesse contexto, não é recomeçar. É interromper. É criar um tipo de silêncio que até parece alívio, mas que leva junto partes importantes da experiência, inclusive aquelas que poderiam reorganizar limites e escolhas daqui pra frente.

Porque, por mais injusto que seja, a memória também cumpre uma função. Ela não serve apenas para reabrir feridas; serve para dar contorno ao que foi vivido, para impedir que tudo se dilua numa narrativa conveniente demais. Não se trata de romantizar a dor nem de transformá-la em identidade, mas de reconhecer que apagá-la não resolveria o que a gerou. No máximo, mudaria a forma como isso aparece — talvez mais difuso, talvez mais silencioso, mas ainda presente de algum jeito.

Talvez o caminho mais difícil — e mais honesto — não passe por esquecer, mas por alterar a posição que essas lembranças ocupam. Não mais como algo que domina, mas como algo que pode ser acessado sem desmontar tudo outra vez. Isso não acontece de forma linear, nem rápida, nem limpa. Exige tempo, repetição, algum nível de elaboração que nem sempre é confortável. Mas é diferente de um apagamento forçado, porque não exige abrir mão de si para continuar.

No fim, não é sobre zerar a própria história para seguir. É sobre conseguir carregá-la sem que ela continue definindo, sozinha, o que vem depois.

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