Quando a memória incomoda mais do que a dor

Tem dia em que eu queria abrir a cabeça e tirar coisa de dentro com a mão. Não esquecer no sentido banal, de mudar de assunto e tocar a vida — esquecer mesmo: apagar certas lembranças, cortar certos acessos, não ter mais de conviver com coisas que voltam quando já deveriam ter perdido a força. Existe um cansaço próprio da memória, e não é do que aconteceu: é da facilidade com que aquilo continua à mão, sempre no alcance do braço, sempre disponível. Minha cabeça entendeu tudo muito antes do resto de mim. Ela organizou versões, encontrou explicação, construiu sentido. O meu corpo é que trabalha em outro horário — enquanto uma parte já compreendeu, a outra continua reagindo como se ainda estivesse na sala, na noite, na cena.

E às vezes essa vontade nem é minha. Vi no olhar dele, mais de uma vez, quando eu toquei no assunto — não dita, mas ali, no jeito de respirar fundo antes de responder. Como se a minha memória fosse um defeito a ser corrigido e não a consequência natural do que a gente viveu. Como se lembrar fosse escolha minha, e não uma coisa que simplesmente acontece comigo às três da manhã. Existe uma distância enorme entre querer aliviar o sofrimento de alguém e querer que ele pare de sentir porque assim tudo ficaria mais confortável. Os dois gestos se parecem só na superfície: um é cuidado, o outro é pressa de encerrar um assunto que ainda não terminou.

Por isso eu nunca sei o que estou pedindo quando peço para esquecer. Estou querendo me livrar da dor ou estou tentando corresponder à expectativa de que já devia ter superado aquilo? Desconfio que sejam as duas ao mesmo tempo. Carregar certas lembranças cansa de verdade. E existe uma pressão calada para que elas sumam logo — como se a permanência da memória fosse prova de fracasso, de apego, de incapacidade de andar. Não é. Algumas coisas continuam presentes porque foram importantes, porque deixaram marca, porque mudaram alguma coisa de lugar para sempre.

Trato a minha memória como inimiga, e ela não é. Trato como se fosse apenas o que reabre ferida, quando é também o que dá contorno ao que eu vivi: é ela que impede que a história seja reescrita de um jeito conveniente demais, é ela que sabe onde os limites foram atravessados e por que certas escolhas minhas passaram a fazer sentido depois disso. Não estou falando de virar meu sofrimento em identidade, nem de morar no passado. Estou dizendo que esquecer não resolveria grande coisa — no máximo abriria um buraco artificial onde antes havia uma experiência ainda procurando lugar.

Por isso parei de querer apagar. O que me parece possível, e muito mais difícil, é outra coisa: já vi acontecer com lembranças mais antigas, que saíram do centro da casa sem desaparecer. Continuam existindo, e já não decidem cada escolha, cada reação, cada expectativa sobre o que vem. Não foram eliminadas — mudaram de cômodo. E essa mudança é lenta, não acontece por força de vontade nem depois de uma conversa difícil. Acontece aos poucos, quando a lembrança deixa de ser presença constante e volta a ser o que deveria ter sido desde sempre: uma parte da história, e não o lugar de onde toda a história continua sendo contada.

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