Tem dias em que a vontade é simples de entender e impossível de realizar: esquecer. Não esquecer no sentido banal da expressão, como quem muda de assunto ou decide seguir a vida. Esquecer de verdade. Apagar determinadas lembranças, desligar certos acessos, não precisar mais conviver com coisas que continuam voltando quando já deveriam ter perdido a força. Porque existe um cansaço próprio da memória. Não apenas daquilo que aconteceu, mas da facilidade com que certas experiências continuam disponíveis. A cabeça entende muita coisa antes do resto. Organiza versões, encontra explicações, constrói sentido. O problema é que o corpo parece trabalhar em outro horário. Enquanto uma parte de você já compreendeu o que aconteceu, outra continua reagindo como se ainda estivesse tentando alcançar a mesma conclusão.
Às vezes me pergunto se esse desejo de esquecer nasce apenas de quem sente. Tenho a impressão de que não. Em algumas situações, ele também aparece no olhar de quem está do outro lado da história. Nem sempre de forma explícita, mas presente. Como se a memória fosse um problema a ser resolvido e não uma consequência natural daquilo que foi vivido. Como se lembrar fosse uma escolha, e não algo que simplesmente acontece. Existe uma diferença enorme entre querer aliviar o sofrimento de alguém e desejar que ele pare de sentir porque isso tornaria tudo mais confortável. São movimentos parecidos apenas na superfície. Um deles envolve cuidado. O outro, muitas vezes, envolve a necessidade de encerrar um assunto antes que ele tenha realmente terminado.
Talvez por isso a pergunta nunca seja tão simples quanto parece. Quando alguém deseja esquecer, está tentando se libertar de uma dor ou tentando corresponder à expectativa de que já deveria ter superado aquilo? Em muitos casos, suspeito que as duas coisas aconteçam ao mesmo tempo. Existe um desgaste real em continuar carregando certas lembranças. Mas também existe uma pressão silenciosa para que elas desapareçam. Como se a permanência da memória fosse um sinal de fracasso, apego ou incapacidade de seguir em frente. E não acho que seja assim. Algumas experiências continuam presentes porque foram importantes. Porque deixaram marcas. Porque mudaram alguma coisa.
A memória tem uma reputação injusta nesses momentos. Costumamos tratá-la apenas como aquilo que reabre feridas, quando ela também é responsável por dar contorno ao que vivemos. É ela que impede que determinadas histórias sejam reescritas de forma conveniente demais. É ela que lembra onde certos limites foram atravessados e por que algumas escolhas passaram a fazer sentido depois disso. Não estou falando de transformar sofrimento em identidade ou de viver preso ao passado. Estou falando apenas de reconhecer que esquecer não resolveria muita coisa. No máximo criaria uma ausência artificial onde antes existia uma experiência que ainda precisava encontrar lugar.
Talvez seja por isso que nunca acreditei muito na ideia de apagar. O que me parece possível, embora bem mais difícil, é outra coisa. Chega um momento em que algumas lembranças deixam de ocupar o centro da vida sem necessariamente desaparecer. Elas continuam existindo, mas já não determinam cada decisão, cada reação ou cada expectativa sobre o futuro. Não porque foram eliminadas, mas porque encontraram uma posição diferente dentro da própria história. E essa mudança costuma ser lenta. Não acontece num gesto de vontade, nem numa decisão tomada depois de uma conversa difícil. Acontece aos poucos, quando a lembrança deixa de ser uma presença constante e volta a ser apenas aquilo que deveria ter sido desde o início: uma parte da história, e não o lugar de onde toda a história continua sendo contada.
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