Entrei na sala para falar de uma coisa que tinha me machucado e saí de lá consolando quem tinha me machucado. Levei anos para conseguir enxergar essa cena de fora, porque enquanto ela está acontecendo parece apenas uma conversa difícil. A gente imagina que a pessoa que volta sempre para si mesma seja a convencida, a que fala das próprias qualidades sem parar, aquela que ninguém aguenta na mesa. Quase nunca é. Costuma ser alguém afetuoso, atencioso em muitos momentos, capaz de cuidado, capaz de generosidade de verdade. O problema mora num lugar que é difícil apontar com o dedo. Aparece quando tudo o que acontece acaba, por algum caminho, voltando para ela. Quando a conversa começa sobre mim e termina sobre ela. Quando eu digo que não me sinto ouvido e o que chega do outro lado é nada do que eu faço é suficiente — e aí a dor que estava em cima da mesa já não é a minha, é a dela de estar sendo acusada, e eu passo a hora seguinte administrando isso.
Isso cansa de um jeito difícil de explicar para quem está de fora. Não é porque o outro tem necessidades — todo mundo tem, eu tenho. É que existe uma prioridade funcionando o tempo inteiro sem nunca ter sido combinada. O humor da casa depende dele. O clima do fim de semana depende dele. O desconforto dele chega à mesa antes do prato. E eu fui me ajustando sem perceber: aprendi a ler expressão, a identificar mudança de tom no meio da frase, a prever a tempestade antes da primeira nuvem aparecer no céu. Passei a medir palavra, medir horário, medir reação. Não exatamente por medo — porque parecia mais fácil, porque assim a noite não estragava. Essa facilidade toda cobra caro depois, e cobra de uma vez.
Um dia eu percebi que sabia mais sobre o estado emocional dele do que sobre o meu. O meu dia bom já não era bom sozinho: dependia de como ele tinha acordado. Uma comemoração perdia a graça por causa de uma irritação que nem era minha e que ninguém explicou. Uma noite tranquila era atravessada por uma tensão que não nasceu em mim e que, mesmo assim, decidia como aquela noite ia terminar. E isso avança devagar, é essa a maldade da coisa: não tem um dia em que aconteça. Quando eu vi, já tinha passado anos girando em torno do clima de uma pessoa.
Tem ainda a parte que dói de um jeito mais mesquinho, e vou dizer assim mesmo: quando o aplauso da rua vale mais do que a casa. Existe gente que precisa da confirmação diária de que continua admirada, desejada, relevante, e o amor de dentro não paga essa conta — nunca paga, não foi feito para isso. Quem está do lado percebe. Percebe pelo jeito como a atenção fica procurando onde pousar. Percebe quando a aprovação de um estranho acende mais do que anos de intimidade. Eu percebi olhando para uma coisa simples e humilhante de admitir: para outras pessoas ele achava energia. Energia para malhar, para se arrumar, para atravessar a cidade num dia de semana. Dentro de casa a energia acabava, sempre acabava. E o corpo entende isso antes da cabeça: se acaba para mim e sobra para os outros, o nome daquilo não é cansaço.
E não estou dizendo que isso nasce de maldade, porque não nasce, e é justamente isso que embaralha tudo. Por baixo costuma haver fragilidade: insegurança, medo de não bastar, necessidade de ser reafirmado toda hora, buraco antigo que ninguém escolheu ter. Tem estudo ligando esse funcionamento a dificuldade de empatia, autoestima instável, dependência de validação de fora — eu li bastante sobre isso, passei meses lendo, que é o que eu faço quando não entendo alguém. Só que entender a origem de uma coisa não apaga o efeito dela. A explicação me ajudou a ter pena. Não me ajudou nem um pouco a dormir.
A pergunta que importava chegou muito depois de todas as outras. Passei anos com a atenção virada para fora: por que ele age assim, o que aconteceu com ele, o que falta ali dentro, como é que uma pessoa constrói uma coisa dessas. Escrevi páginas e páginas sobre isso, e continuo escrevendo. Só num certo ponto a direção virou e eu comecei a perguntar o que estava acontecendo comigo lá dentro. O que foi ficando pelo caminho. Quanto da minha espontaneidade evaporou sem eu ver. Quanto da minha voz passou a ser filtrada antes de sair, para não desequilibrar ninguém.
Nenhuma relação deveria exigir que uma pessoa seja a administradora emocional da outra. Não deveria exigir alguém de plantão, com o ouvido encostado na porta, garantindo que a casa continue de pé. E amor, por mais fundo que seja, não deveria transformar presença em plateia. Existe uma distância enorme entre dividir a vida com alguém e passar a vida orbitando alguém — e de dentro da órbita as duas coisas parecem exatamente iguais, porque nas duas você está perto todos os dias.
Talvez amadurecer seja isso e só isso: perceber que eu passei tempo demais acompanhando os movimentos de um centro que não era o meu. E que existe uma vida inteira parada do lado de fora dessa órbita, esperando, no minuto em que eu voltar a ocupar o meu próprio lugar.
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