A geladeira da minha casa faz um zumbido que eu só escuto quando ela para. É assim que certas relações se gastam: não no dia em que acabam, mas no tempo comprido em que continuam existindo sem oferecer mais aquilo que deveriam oferecer. O amor permanece. O vínculo está lá. Ainda tem dia bom, conversa boa, momento que lembra por que aquilo começou. Só que alguma coisa mudou no fundo, e não foi ruptura, não foi episódio, não teve data no calendário. É uma sensação difícil de localizar e impossível de ignorar depois que se instala — de tão constante, deixa de ser um problema específico e vira parte da casa. Como o zumbido.
Ainda rimos juntos numa quarta-feira dessas, e eu me peguei calculando quanto tempo fazia desde a última vez. É isso que embaralha tudo: existe afeto. E onde há afeto a gente acredita que ele deveria dar conta do resto. Só que amor nunca foi sinônimo de segurança, nunca foi garantia de sossego. Existe relação em que o carinho continua e a paz vai embora sem avisar em que dia saiu. A convivência funciona na superfície enquanto por baixo cresce uma tensão que não passa. Passei a medir demais as palavras. A pensar duas vezes antes de tocar em certos assuntos. A examinar o humor dele na porta antes de dizer o que penso. Sem perceber, comecei a circular dentro da minha própria relação com o cuidado de quem pisa em terreno que já cedeu uma vez.
Deixei passar a primeira coisa numa terça-feira e hoje nem lembro qual era. Depois deixei outra. Depois engoli um desconforto legítimo porque não tinha energia para a reação que ele ia provocar numa noite em que ele já tinha chegado calado. Ninguém acorda decidido a ocupar menos espaço — vai acontecendo, e não faz barulho ao acontecer. Quando eu vi, já não falava com a mesma liberdade, já não reagia do mesmo jeito, já não ocupava o mesmo lugar dentro da minha própria casa. E poucas coisas gastam tanto quanto descobrir que foi preciso encolher para manter uma relação funcionando, principalmente quando o que ficou pelo caminho não eram defeitos meus. Era a minha espontaneidade. A minha leveza. A minha capacidade de existir sem calcular cada passo antes de dar.
Acordei às três da manhã com uma pergunta e ela não era sobre ele. Quando a confiança quebra, o estrago não fica dentro da relação: atinge o jeito como eu me olho. Depois de uma mentira grande, de uma traição, de qualquer acordo rompido, nasce uma dúvida que nem sempre chega a virar frase e mesmo assim fica morando. Se aquilo aconteceu comigo, o que exatamente eu deixei de ver? Como não percebi? Em que ponto a minha leitura falhou? A dor inicial vem do que o outro fez. O estrago mesmo vem depois dela — uma desconfiança virada para dentro, apontada para mim.
Revejo conversa antiga procurando o sinal que eu acho que ignorei. Reinterpreto cena de dois anos atrás como quem revê filme atrás do detalhe. Já não questiono o comportamento dele: questiono o meu julgamento. E o que antes era apenas um jeito saudável de perceber o mundo virou radar ligado dia e noite, sem botão de desligar. Não porque eu queira viver assim — para impedir que a história se repita. É reação compreensível, e cobra caríssimo. Quem passa tempo demais tentando não se machucar acaba perdendo a capacidade de se entregar. A mesma proteção que barra ferida nova barra tudo o mais que ia entrar junto com ela.
Vi um casal se despedindo na porta de um prédio, sem nada de especial — um beijo rápido, uma mão nas costas, uma frase que eu não escutei —, e senti uma coisa que demorei a admitir que era inveja. Não a mesquinha, que deseja o mal alheio. A outra, a que sobe quando a gente vê alguém vivendo com leveza e mede, ali na calçada, o tamanho da própria falta. Falta que não é de perfeição, nem de romance permanente. É de coisa muito mais simples: paz. Reciprocidade. Segurança. A sensação de não precisar estar sempre pronto para o próximo golpe.
Trabalho, vejo amigos, cumpro o que tem de ser cumprido, mantenho a máquina girando, e por fora quase nada muda — ninguém desconfia de nada, ninguém pergunta. Mas por dentro vai se juntando um cansaço que não vem só da relação: vem do esforço contínuo de compreender, justificar, adaptar, aguentar e continuar acreditando que as coisas ainda podem voltar a ser o que eram um dia. Até que a pergunta muda de assunto. Já não é sobre amor, e já nem é sobre ficar ou não ficar. É esta, mais suja e mais honesta: quanto custa continuar vivendo assim?
Fiz essa conta uma noite dessas e não gostei do resultado. Ela não nasce de fraqueza, essa pergunta — nasce no dia em que o desgaste encontra o próprio limite, quando fica claro que sobreviver dentro de uma relação e estar bem dentro dela são duas coisas diferentes. A geladeira continua zumbindo. Eu é que voltei a escutar.
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