Nem todo esgotamento derruba uma pessoa. Alguns só passam a ocupar espaço demais dentro dela. A minha rotina continuou funcionando, os compromissos foram cumpridos, as conversas aconteceram, o afeto continuou ali — e quem me olhava de fora não percebeu mudança nenhuma. Porque certas perdas acontecem sem barulho. A leveza diminuiu. A curiosidade pelas pessoas diminuiu. Certos entusiasmos foram ficando raros, e eu nem reparei no dia em que pararam. Aos poucos, a maior parte da minha energia passou a ser consumida administrando problema antigo, evitando desgaste novo, sustentando uma relação que já exigia muito mais do que devolvia.
Talvez por isso certos encontros produzam efeito tão desproporcional.
E não estou falando de amor, nem de paixão. Bastou uma conversa. Uma troca de olhar que durou dois segundos a mais do que devia durar. Uma presença que despertou em mim uma atenção que já não acontecia havia muito tempo. E o mais curioso é que o impacto chegou antes de qualquer conclusão: o corpo percebeu primeiro. Teve uma aceleração estranha no peito. Teve uma atenção insistindo em voltar para a mesma pessoa. Teve uma energia diferente circulando num lugar onde só existia rotina. E logo atrás disso, pontual como cobrança, chegou a culpa.
Porque a gente aprende cedo a ler qualquer encantamento como ameaça imediata, como se sentir interesse, curiosidade ou admiração por alguém fosse automaticamente uma forma de deslealdade. Só que a experiência é bem mais embolada do que essa leitura permite.
Às vezes o que atinge a gente não é exatamente a pessoa.
É aquilo que ela desperta.
E as duas coisas não se confundem.
Quando alguém passa muito tempo dentro de uma relação marcada por tensão, insegurança e desgaste, certas sensações vão desaparecendo sem aviso prévio. Não somem de vez: ficam adormecidas num canto qualquer. A espontaneidade. O frio na barriga. A sensação de ser visto de um jeito leve, sem histórico, sem processo em andamento. A possibilidade de existir sem estar administrando problema antigo. E aí aparece alguém e, por alguns instantes, essas partes esquecidas acordam todas juntas.
Acho que é por isso que certos encontros confundem tanto.
Porque parecem falar do outro quando estão falando de mim.
Não sobre desejo. Nem sobre compatibilidade. Nem sobre futuro.
Sobre vitalidade.
Sobre descobrir que ainda existe em mim uma parte que reage ao mundo.
Uma parte que os conflitos anteriores não conseguiram absorver inteira.
E é isso que torna essas experiências tão difíceis de interpretar: elas acontecem ao mesmo tempo em que existe amor por outra pessoa. Acontecem ao mesmo tempo em que existem compromisso, história dividida, vontade de permanecer, aliança no dedo. É essa coexistência que produz o desconforto. Porque gostar de alguém e sentir alguma coisa acordar diante de outra presença não são experiências tão mutuamente excludentes quanto a gente gostaria que fossem.
Muitas vezes, o que aparece não é um amor novo.
É contraste.
O contraste entre uma relação carregada de passado e uma pessoa que ainda não carrega passado nenhum.
O contraste entre um lugar onde já existem feridas conhecidas e outro onde ainda não existe ferida alguma.
O contraste entre sobreviver e sentir.
Nem todo encantamento precisa virar escolha. Nem toda pessoa que desperta alguma coisa está destinada a ocupar lugar importante na história de ninguém. Algumas passam rápido. Algumas somem sem deixar contato, sem deixar continuidade, sem deixar nada além da lembrança de uma tarde.
Mas às vezes isso já basta.
Porque existem encontros que não entram na vida da gente para permanecer.
Entram só para lembrar que a gente ainda está vivo dentro dela.
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