Dar forma ao que ainda não tem nome

Sentei para escrever numa madrugada de terça com a cabeça pesando de um jeito que eu não sabia nomear, e passei quarenta minutos só olhando a tela branca. Não era resposta que faltava — quase nunca é. Faltava achar a ponta do fio, saber onde uma coisa terminava e a outra começava. Porque existem temporadas em que tudo chega junto, empurrando: uma lembrança puxa outra sem pedir licença, uma sensação atravessa o dia inteiro sem nunca dizer o próprio nome, certas conclusões já estão prontas dentro de mim antes de eu entender de onde vieram. Nada se arruma sozinho. As coisas apenas se acumulam, e o novelo aperta, e quanto mais aperta menos se enxerga qual fio é qual. Chega um ponto em que não é mais nó nenhum: é uma bola cega dentro do peito.

Talvez seja por isso que eu escreva tanto.

Não porque escrever resolva alguma coisa — quase nunca resolve, e eu já parei de esperar que resolvesse. O que acontece é outra coisa: sentar para escrever me obriga a decisões que a vida nunca exigiu de mim. Preciso escolher por onde puxar. Preciso decidir o que entra primeiro, o que fica para depois, o que não vai aparecer de jeito nenhum. E esse gesto miúdo, quase burocrático, de secretária arquivando pasta numa gaveta, já muda tudo. O caos não desaparece. Ele só para de ocupar todos os cômodos ao mesmo tempo.

Porque a vida não acontece em ordem, e ninguém avisa isso a tempo. Enquanto se atravessa uma coisa, tudo chega embolado: sentimentos que se contradizem dividem a mesma cadeira, eu entendo uma parte e me perco na seguinte, sinto antes de saber o nome, dou o nome e continuo sem entender nada. Mas o texto não engole esse excesso. Ele exige alguma sequência — não porque a sequência exista de verdade, mas porque alguém tem de conduzir o leitor pela mão, mesmo que esse leitor seja eu mesmo às três da manhã, de cueca, na cozinha.

E tem uma edição silenciosa acontecendo aí, que ninguém vê acontecer. Não é para embelezar o que foi vivido, nem para deixar a coisa mais coerente do que foi. É para descobrir que nem tudo pesa igual. Nem tudo cabe na mesma frase. Nem tudo está pronto para ser dito hoje. Algumas coisas ficam de fora não por terem perdido importância, mas porque ainda não existe língua capaz de segurá-las sem que se rasguem no caminho.

Sempre achei curioso como certas ideias aparecem no meio da escrita sem estarem ali cinco minutos antes. Eu começo um texto convencido de que vou falar de uma coisa e termino entendendo outra, completamente diferente, que estava embaixo o tempo todo esperando alguém levantar. Não porque eu tenha descoberto nenhuma grande verdade escondida — mas porque escrever abre um palmo de distância que não existia enquanto aquilo estava acontecendo comigo. A experiência deixa de ser só vivida. Passa a ser também olhada, de fora, com alguma piedade.

Por isso conversar nem sempre me faz o mesmo efeito. A conversa tem pressa. Pede resposta. Pede presença imediata. Pede que eu saiba o que penso antes de ter pensado, com alguém do outro lado olhando na minha cara e esperando o próximo som sair da minha boca. A escrita anda noutro compasso. Ninguém interrompe uma frase no meio. Ninguém pede explicação antes de a ideia terminar de nascer. Dá para voltar, apagar, desdizer o que acabei de dizer sem ninguém notar. Dá para ficar morando dentro de uma pergunta sem a obrigação de convertê-la depressa em resposta.

E é nessa folga que alguma coisa começa a acontecer.
Não compreensão. Às vezes nem isso.
Mas alguma aproximação.

A sensação de que aquilo que estava espalhado demais para ser visto agora tem contorno, ainda que fraco, ainda que tremido. O fio saiu do novelo e está ali, em cima da mesa, embaixo da luz da luminária. Não foi resolvido nada — apenas deixou de ser ruído e passou a ter começo. E é por isso que eu nunca acreditei muito quando dizem que escrever serve para comunicar. Serve, claro que serve. Mas antes disso existe outra função, mais íntima e menos visível, que não acontece na frente de ninguém.

Escrever é o jeito que eu encontrei de escutar pensamentos que ainda não sabiam que existiam.

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