Já passou da hora de olhar com mais desconfiança para essa indústria inteira construída em torno da ideia de "fortalecer homens". Todo dia aparece um curso novo prometendo a mesma coisa: mais confiança, mais presença, mais respeito, mais poder de atração. O sujeito entra inseguro e sai, teoricamente, transformado. Aprende a falar de outro jeito, a andar de outro jeito, a ocupar espaço, a sustentar contato visual, a controlar a voz. Existe uma obsessão enorme pela imagem. Pela impressão que será causada nos outros. E talvez seja justamente aí que esteja o problema.
Porque boa parte desses cursos parece partir da ideia de que a dificuldade está na embalagem. Como se o homem estivesse sofrendo porque não aprendeu determinados códigos sociais. Como se faltasse postura, técnica ou linguagem corporal. Só que basta observar um pouco para perceber que, muitas vezes, a questão é outra. O sujeito aprende a parecer seguro, mas continua incapaz de sustentar escolhas simples quando elas deixam de ser confortáveis. Continua mentindo quando é conveniente, escondendo coisas quando acredita que não será descoberto, prometendo mudanças que não pretende realizar. Continua tratando responsabilidade como algo que pode ser compensado por discurso.
E isso me parece curioso porque quase nunca aparece nesses conteúdos. Fala-se muito sobre liderança, domínio emocional, magnetismo, influência. Fala-se muito pouco sobre caráter. Talvez porque caráter não seja algo que possa ser vendido em dez aulas. Não existe técnica para ensinar alguém a ser honesto quando a mentira parece mais vantajosa. Não existe exercício prático capaz de produzir integridade da mesma forma que alguém aprende a projetar a voz ou melhorar a postura.
O mais estranho é que muitos desses homens nem sequer desconhecem o problema. Não estamos falando de falta de informação. Eles sabem quando estão sendo incoerentes. Sabem quando estão traindo acordos. Sabem quando estão manipulando situações para benefício próprio. O que acontece é que aprenderam outra habilidade: a de justificar depois. A de produzir explicações suficientemente convincentes para continuar se enxergando como pessoas corretas. E talvez seja por isso que tantos discursos sobre evolução pessoal soem vazios depois de algum tempo. Porque a transformação prometida acontece quase sempre na superfície.
É fácil perceber isso quando alguém atravessa uma crise real. A postura treinada desaparece rápido. A linguagem corporal perde importância. O personagem fica mais difícil de sustentar. E é justamente nesses momentos que aparecem as escolhas que realmente importam. Não a forma como alguém entra numa sala, mas a forma como age quando ninguém está olhando. Não a capacidade de impressionar desconhecidos, mas a capacidade de permanecer coerente quando existe oportunidade para fazer o contrário.
Talvez seja por isso que eu tenha dificuldade de levar muito a sério essa ideia de masculinidade construída como performance. Ela produz homens mais preparados para parecer confiantes do que para lidar com as próprias contradições. Produz homens que sabem vender uma versão de si mesmos, mas nem sempre sabem conviver com quem realmente são.
E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.
Porque força não tem muito a ver com dominar ambientes, vencer disputas sociais ou acumular validação. Essas coisas impressionam mais, rendem vídeos melhores e geram mais dinheiro. Mas a força que realmente muda alguma coisa costuma ser bem menos espetacular. Ela aparece quando ninguém está assistindo. Quando existe a chance de fazer a coisa errada e, ainda assim, alguém escolhe não fazer. Quando não é preciso reorganizar a própria história o tempo inteiro para continuar parecendo uma boa pessoa.
Talvez seja justamente por isso que esse tema receba tão pouca atenção. Não porque seja menos importante, mas porque não pode ser transformado facilmente em produto. É muito mais simples vender uma nova imagem do que encarar aquilo que continua igual por trás dela.
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