Ensinar a parecer, ignorar o essencial

O anúncio me persegue há semanas, sempre o mesmo sujeito de camisa preta, braços cruzados, falando para a câmera com aquela voz de quem está me fazendo um favor. Já passou da hora de olhar com desconfiança para essa indústria inteira montada em cima da ideia de fortalecer homens. Todo dia aparece um curso novo prometendo exatamente a mesma coisa: mais confiança, mais presença, mais respeito, mais poder de atração. O cara entra inseguro e sai, em tese, outro. Aprende a falar de outro jeito, a andar de outro jeito, a ocupar espaço numa sala, a sustentar o olhar sem piscar, a controlar a voz. Tem uma obsessão enorme pela imagem, pela impressão que vai causar nos outros. E é exatamente aí que a coisa desanda.

Porque quase todos esses cursos partem do princípio de que o problema está na embalagem. Como se o homem sofresse por não ter aprendido certos códigos sociais. Como se faltasse postura, técnica, linguagem corporal, aperto de mão firme. Basta olhar um pouco de perto para ver que costuma ser outra coisa completamente diferente. O sujeito aprende a parecer seguro e continua incapaz de sustentar uma escolha simples no minuto em que ela deixa de ser confortável. Continua mentindo quando é conveniente. Continua escondendo quando acha que não vai ser descoberto. Continua prometendo mudança que não pretende cumprir. Continua tratando responsabilidade como uma coisa que se paga com discurso bonito na hora certa.

E isso praticamente não aparece nesses conteúdos, o que por si só já diz muita coisa. Fala-se de liderança, de domínio emocional, de magnetismo, de influência. Fala-se pouquíssimo de caráter. Talvez porque caráter não caiba em dez aulas gravadas. Não existe técnica que ensine alguém a ser honesto no dia em que a mentira rende mais. Não existe exercício prático que produza integridade do jeito que se aprende a projetar a voz e a endireitar as costas na frente do espelho.

O mais estranho é que esses homens não desconhecem o problema — e essa é a parte que eu levei tempo demais para entender. Não é falta de informação. Eles sabem quando estão sendo incoerentes. Sabem quando estão quebrando um acordo. Sabem quando estão torcendo a situação a favor de si. O que eles aprenderam foi outra habilidade, muito mais útil que postura: justificar depois. Produzir uma explicação convincente o bastante para continuar se enxergando como gente boa no espelho da manhã seguinte, com a escova de dente na boca. É por isso que tanto discurso de evolução pessoal soa oco depois de um tempo — a transformação prometida acontece toda na casca.

Isso fica escandalosamente claro quando alguém atravessa uma crise de verdade. A postura treinada some em dois dias. A linguagem corporal não vale nada com o telefone tocando às três da manhã. O personagem começa a escorregar do rosto como maquiagem em dia quente. E é justamente ali que aparecem as escolhas que importam: não o jeito de entrar numa sala, mas o jeito de agir quando não tem ninguém olhando. Não a capacidade de impressionar um desconhecido numa festa, mas a de continuar coerente quando existe toda a oportunidade do mundo de não ser.

Por isso eu tenho dificuldade de levar a sério essa masculinidade construída como performance. Ela fabrica homens mais preparados para parecer confiantes do que para conviver com as próprias contradições. Homens que sabem vender uma versão de si e não sabem morar com quem de fato são.

São coisas muito diferentes.

Porque força tem pouquíssimo a ver com dominar ambiente, vencer disputa social ou acumular validação. Isso impressiona mais, rende vídeo melhor, dá muito mais dinheiro — é por isso que é o que se vende. Mas a força que muda alguma coisa é bem menos espetacular e não dá vídeo nenhum: ela aparece quando ninguém está assistindo. Quando existe a chance de fazer a coisa errada e a pessoa simplesmente não faz. Quando não é preciso reescrever a própria história toda semana para continuar parecendo alguém decente.

E talvez seja exatamente por isso que esse assunto receba tão pouca atenção. Não por ser menos importante. Por não virar produto com facilidade. É muito mais simples vender uma imagem nova do que encarar o que continua igual atrás dela.

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