Tem um cara na academia que costuma aparecer com uma camiseta escrita: "era isso ou o psicólogo". Toda vez que vejo, dou uma risada interna. Não porque a frase seja especialmente engraçada, mas porque ela parece resumir uma maneira muito específica de existir. E quanto mais penso nela, menos ela me parece uma piada.
Porque ninguém está falando realmente da academia.
Treinar faz bem. Caminhar faz bem. Correr faz bem. Gastar energia faz bem. O problema nunca esteve aí. O problema aparece quando certas atividades deixam de ser uma escolha e passam a funcionar como substituição. Quando o movimento ocupa o lugar da reflexão. Quando o cansaço físico se torna uma forma eficiente de não precisar lidar com aquilo que continua pedindo atenção.
Talvez seja por isso que a frase me incomode um pouco. Existe nela uma espécie de orgulho silencioso, como se evitar qualquer aprofundamento emocional fosse sinal de praticidade. Como se fosse mais razoável carregar tudo sozinho do que tentar entender o que está acontecendo. E não acho que isso aconteça apenas na academia. Na verdade, a camiseta só me fez lembrar de quantas pessoas vivem exatamente assim. Não necessariamente mal. Não necessariamente sofrendo o tempo inteiro. Apenas ocupadas demais para escutar a si mesmas.
A estratégia costuma funcionar durante bastante tempo. Você se mantém em movimento. Trabalha, treina, resolve problemas, faz planos, cumpre tarefas. E tudo parece sob controle. Mas algumas coisas têm o hábito irritante de voltar quando não encontram espaço. Voltam em discussões que não deveriam ter aquele tamanho. Voltam em reações que surpreendem até quem está sentindo. Voltam na dificuldade de conversar sobre determinados assuntos sem ficar imediatamente na defensiva. Voltam em relações que nunca conseguem ultrapassar certo limite de profundidade.
O curioso é que quase nunca associamos essas coisas umas às outras. É mais fácil dizer que o problema foi a situação específica, a pessoa errada, o momento errado. Mais fácil acreditar que aquilo surgiu do nada. Só que nem sempre surge. Às vezes é apenas algo antigo encontrando um jeito de aparecer.
Também existe uma valorização enorme desse modelo de funcionamento. A pessoa produtiva, resiliente, prática, que segue em frente sem olhar muito para trás. A ideia de parar para entender o que se sente frequentemente aparece como exagero, perda de tempo ou excesso de sensibilidade. Como se existir fosse apenas uma questão de continuar funcionando.
E talvez seja isso que aquela camiseta realmente me faz pensar.
Não na escolha entre academia e psicólogo.
Mas na quantidade de gente que transformou qualquer forma de movimento numa estratégia para nunca precisar permanecer parada tempo suficiente diante de si mesma.
Porque correr alguns quilômetros é difícil.
Levantar peso também.
Mas existem conversas internas que dão muito mais trabalho do que qualquer treino.
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