Era isso ou o psicólogo

Tem um sujeito na academia que aparece de vez em quando com uma camiseta escrita "era isso ou o psicólogo". Toda vez eu rio por dentro enquanto conto a repetição, e depois passo o caminho de casa pensando naquilo. Cinco palavras estampadas nas costas de um homem suando, e ali está um jeito inteiro de estar vivo. Quanto mais eu penso, menos me parece piada.

Porque ninguém ali está falando de academia.

Treinar me faz bem, caminhar me faz bem, gastar o corpo até a camiseta grudar nas costas me faz bem — nunca foi esse o problema. O problema aparece no dia em que a atividade deixa de ser escolha e vira substituição: quando eu levanto peso para não sentar, quando o cansaço físico se torna o jeito mais eficiente que encontrei de não olhar para o que continua batendo na porta.

Aquela camiseta tem um orgulho calado que me incomoda, como se fugir de qualquer aprofundamento fosse sinal de praticidade, como se carregar tudo sozinho fosse mais sensato do que tentar entender o que está acontecendo. E não é coisa de academia — reconheço porque eu já vivi assim, temporadas inteiras: não necessariamente mal, não sofrendo o tempo todo, apenas ocupado demais para me escutar.

Funciona por bastante tempo. Eu me mantenho em movimento, trabalho, treino, resolvo, planejo, cumpro, e tudo parece sob controle — até que as coisas voltam, porque elas têm o hábito irritante de voltar quando não encontram lugar. Voltam numa discussão desproporcional por causa de uma louça na pia. Voltam numa reação que assusta até a mim. Voltam na dificuldade de falar de certos assuntos sem subir a guarda antes da terceira frase. Voltam em relações que nunca passam de determinada profundidade, como se houvesse um fundo falso a meio caminho.

E eu quase nunca ligo uma coisa à outra. Digo que o problema foi a situação, a pessoa errada, o dia errado, a noite mal dormida — é mais fácil acreditar que aquilo veio do nada. Não veio. É sempre algo antigo encontrando, enfim, uma fresta por onde aparecer.

E todo mundo admira isso. Elogiam a pessoa produtiva, resistente, prática, que segue em frente sem olhar para trás e não dá trabalho a ninguém. Parar para entender o que se sente vira exagero, perda de tempo, sensibilidade demais — como se existir fosse apenas continuar funcionando sem dar defeito.

É isso que a camiseta me faz pensar de verdade.

Não na escolha entre a academia e o psicólogo.

Na quantidade de gente que transformou qualquer movimento numa forma de nunca precisar ficar parada tempo suficiente na frente de si mesma.

Porque correr dez quilômetros é difícil.

Levantar peso também.

Mas há conversas de dentro que dão muito mais trabalho do que qualquer treino, e para essas não existe carga, não existe série, não existe descanso entre uma e outra.

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