Era isso ou o psicólogo

Tem um cara na academia com uma camiseta escrita: “era isso ou o psicólogo”. E não é só uma frase solta. É quase um resumo. Fico olhando e pensando no quanto aquilo diz — não exatamente sobre ele, mas sobre um padrão inteiro de funcionamento que passa batido porque parece normal: a capacidade de transformar qualquer coisa em alternativa… desde que essa alternativa não envolva parar e se escutar. Porque, no fundo, não é sobre a academia. Nunca foi. 

Treinar, cuidar do corpo, descarregar energia — nada disso é o problema. O problema começa quando isso deixa de ser escolha e vira substituição, quando o movimento ocupa o lugar onde deveria existir algum tipo de elaboração, quando o cansaço físico passa a ser usado como forma de silenciar o que não se quer nomear.

A frase tenta soar leve, quase engraçada, mas carrega um orgulho meio deslocado, como se evitar o mínimo de aprofundamento emocional fosse sinal de praticidade. Como se fosse mais razoável resolver tudo no esforço do corpo do que encarar o que está desorganizado por dentro, como se existir sem se entender fosse, de alguma forma, mais aceitável. E isso não aparece só na academia. Aparece na forma como muita gente lida com conflito, com frustração, com vínculo: quando a conversa começa a exigir mais do que respostas rápidas, vem o desvio — muda de assunto, faz piada, se irrita, se fecha, sai.

Não é exatamente incapacidade de entender; é recusa em permanecer tempo suficiente dentro daquilo para que alguma coisa se organize, porque permanecer exige um tipo de exposição que não tem como performar. 

Você não sustenta escuta com postura, não resolve contradição com presença física, não reorganiza o que sente só ocupando espaço. Em algum momento, se não houver linguagem, tudo volta em outro formato — mais curto, mais reativo, mais difícil de sustentar.

E aí o efeito aparece depois, quase sempre fora de contexto: dificuldade de se comunicar, relações que não avançam, explosões que parecem desproporcionais, silêncios que viram distância. Mas isso raramente é conectado com a ausência de elaboração; fica mais fácil atribuir ao outro, à situação, ao timing errado, porque olhar para isso exigiria justamente o que a frase evita. Não é uma questão individual isolada. Existe um incentivo constante para manter tudo nesse nível: funcional, produtivo, mas pouco consciente. Sentir vira algo que precisa ser contornado rápido, entender vira excesso, parar vira perda de tempo. E, nesse cenário, “era isso ou o psicólogo” deixa de ser só uma piada — vira posicionamento, como se houvesse mérito em escolher o desvio.

Talvez o mais incômodo não seja a escolha em si, mas o quanto ela é validada. Porque enquanto for mais fácil transformar desconforto em atividade do que em linguagem, mais comum vai ser ver gente funcionando bem por fora e completamente desalinhada por dentro. Sem pausa. Sem nome. Sem realmente encarar.

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