O que se negocia quando o desejo muda

A conversa começou quase como uma provocação, mas ficou na minha cabeça mais tempo do que eu imaginava. Relacionamentos abertos seriam, em alguns casos, uma maneira de lidar com o fato de que o desejo já não ocupa o mesmo lugar de antes? Não falo de ausência total de interesse ou de afeto. Falo daquela mudança mais difícil de admitir, quando alguma coisa continua existindo, mas já não sustenta a relação da mesma forma. Em vez de encarar diretamente essa transformação, amplia-se o acordo. Muda-se a estrutura. Como se alterar as regras pudesse resolver aquilo que já vinha mudando por dentro.

A reação veio rápida, quase automática. Relacionamento aberto como sinal de maturidade, evolução emocional, confiança. Uma espécie de estágio mais avançado das relações, enquanto a monogamia costuma ser empurrada para o lugar da insegurança, do ciúme e da posse. E é justamente aí que meu interesse pelo assunto começa. Não porque eu ache que um modelo seja superior ao outro, mas porque me incomoda a facilidade com que algumas pessoas transformam uma escolha relacional em uma categoria moral. Como se abrir a relação fosse, por si só, prova de autoconhecimento. Como se negociar exclusividade significasse automaticamente resolver tudo aquilo que costuma atravessar qualquer vínculo humano.

A experiência prática parece bem menos organizada do que esse discurso. Já vi relações abertas construídas com enorme honestidade e relações monogâmicas profundamente sufocantes. Também já vi o contrário. Por isso desconfio quando alguém tenta apresentar qualquer formato como solução. Nenhum acordo, por mais sofisticado que pareça, resolve sozinho insegurança, ressentimento, medo de abandono ou dificuldade de comunicação. Essas questões não desaparecem porque mais pessoas passaram a participar da dinâmica. Elas apenas encontram novos lugares para aparecer.

E talvez seja por isso que a justificativa da confiança absoluta nunca me convença completamente. Em alguns casos, ela é verdadeira. Em outros, parece esconder algo menos confortável. Às vezes o movimento não nasce de excesso de segurança, mas justamente de uma tentativa de administrar a insegurança de outra forma. O medo de perder alguém, o receio de não ser suficiente, a percepção de que o desejo mudou de lugar. Nem sempre a abertura surge porque tudo está funcionando tão bem que as regras se tornaram desnecessárias. Em algumas histórias, ela aparece porque determinadas tensões já estavam ali e precisavam encontrar uma forma de coexistir com a permanência da relação.

Isso não transforma relacionamentos abertos em algo falso ou condenado ao fracasso. Da mesma forma que a monogamia nunca foi garantia de profundidade, lealdade ou estabilidade. O que me parece curioso é a necessidade de defender um modelo como se ele resolvesse questões que pertencem a outra camada da experiência. Porque o problema raramente está na quantidade de pessoas envolvidas. Está na capacidade de olhar para o que mudou sem precisar disfarçar essa mudança.

No fim, a questão talvez seja menos sobre abrir ou fechar uma relação e mais sobre honestidade. Sobre conseguir reconhecer quando um vínculo já não funciona da forma que funcionava antes. Sobre admitir quando o desejo mudou, quando as expectativas mudaram ou quando o amor deixou de ocupar o espaço que ocupava. Existem relações monogâmicas sustentadas por silêncio e relações abertas sustentadas por omissões. Em ambas, o desgaste costuma surgir no mesmo lugar: na distância entre aquilo que está sendo vivido e aquilo que continua sendo contado sobre a relação.

Talvez seja por isso que a pergunta inicial continue me parecendo interessante. Não porque exista uma resposta única, mas porque ela aponta para algo que costuma ser evitado. Às vezes não estamos discutindo a abertura de uma relação. Estamos discutindo a dificuldade de reconhecer que ela já se transformou em outra coisa. E, em alguns casos, mudar o nome dessa transformação parece muito mais difícil do que mudar as regras.

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