Ouvi "segue em frente" umas quinze vezes no primeiro mês, sempre de gente que gosta de mim, sempre com a melhor das intenções. É uma expressão curiosa: sugere uma direção clara, como se eu pudesse deixar aquilo para trás do mesmo jeito que se deixa uma cidade ou uma casa velha, com caminhão de mudança e endereço novo. Não foi assim. A vida continuou, os dias encheram, novas preocupações chegaram — e nada disso significou que as coisas tivessem encontrado lugar. Certas experiências seguem trabalhando em silêncio por anos: saíram do centro da rotina e continuam decidindo como as minhas lembranças me chegam. O passado não muda. Muda o modo como eu passo a olhar para ele.
Passei uma madrugada montando a linha do tempo num caderno, com data e seta, tentando achar o ponto exato em que aquilo tinha começado. Foi ali que eu percebi que a dor tinha mudado de fonte: já não vinha do que aconteceu, vinha do que eu interpretava depois. Não era mais a perda, a mentira, a quebra. Eram as perguntas que só aparecem quando tudo acabou: o que eu não vi? Em que ponto aquilo começou? Teria sido diferente se eu tivesse reagido antes? A minha cabeça adora essas perguntas porque elas dão a impressão de que ainda existe alguma coisa a resolver — como se compreender perfeitamente pudesse diminuir o estrago.
Não diminui.
A minha ferida continuou aberta justamente porque eu insisti em procurar resposta definitiva para uma coisa que nunca vai ter explicação satisfatória. E é nessa fresta que a raiva cresce — não a raiva que explode e passa, que essa até alivia, mas aquela que fica ao fundo, acompanhando o pensamento, reaparecendo em horário aleatório, subindo sempre que uma lembrança específica é tocada por acaso. Ela nem tem a ver com o acontecimento original. Tem a ver com o desequilíbrio que sobrou depois dele.
Soube por terceiros, meses depois, que ele estava bem. Foi uma frase solta numa mesa, dita sem maldade, e eu sorri e mudei de assunto. Porque as consequências não se dividiram por igual, e é isso o que mais me revolta. Uns seguiram a vida sem alteração aparente, com as fotos de sempre, o trabalho de sempre, o domingo de sempre. Eu passei meses, e depois anos, remontando partes de mim atingidas pela mesma história. É difícil olhar para isso e não sentir injustiça. Talvez por isso apareça, uma hora, a fantasia de que o outro deveria entender exatamente o que provocou — não por crueldade, não por vingança, só porque parece haver uma lógica reconfortante na ideia de que o peso deveria ser carregado a dois.
Ensaio essa conversa no chuveiro há tempo demais, e ela nunca vai acontecer. É aí que a espera cobra o preço: para continuar aguardando que ele compreenda, reconheça ou assuma a parte dele, eu preciso permanecer amarrado ao acontecimento. Voltar a ele todo dia. Relembrar. Remontar. Alimentar uma conversa que terminou há muito tempo na vida real e continua acontecendo aqui dentro, sempre com as mesmas falas, sempre com o mesmo final. Sem perceber, a minha tentativa de superar o impacto é justamente o que mantém o impacto vivo.
Foi das coisas mais difíceis que eu aprendi: aquilo não some quando eu encontro um culpado, uma explicação ou uma narrativa bem costurada. Costuma apenas mudar de lugar dentro de mim. E quando fica tempo demais sem encontrar lugar nenhum, começa a contaminar áreas que nada têm a ver com a história original — a confiança fica arisca, o entusiasmo encolhe, a espontaneidade cede espaço à vigilância, e eu passo a olhar com desconfiança gente que nem estava lá quando tudo aconteceu.
Chegou uma hora em que a pergunta mudou sozinha. Durante muito tempo o que importava era o que aconteceu, por que aconteceu, quem deveria responder por aquilo — até que nenhuma dessas perguntas produziu movimento nenhum e todas me mantiveram pregado no mesmo ponto do chão. E então veio outra, bem menos satisfatória e muito mais dura: o que eu faço agora com tudo isso que ficou?
Não é uma pergunta confortável. Não tem resposta rápida. Não oferece o alívio imediato que a raiva promete.
Mas é a única que aponta para algum lugar. Porque a mudança já foi feita — a caixa é que veio junto, sem etiqueta, e agora sou eu quem decide em que cômodo ela fica.
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