Eu estava fazendo rosca direta quando ele passou pela catraca da academia que fica a duas quadras da minha casa. Cumprimentou o rapaz da recepção, largou a mochila no banco, escolheu justamente o aparelho ao lado do meu — e eu continuei contando repetição em voz baixa, olhando o espelho, sem conseguir levantar mais nada. Tem gatilho que não chega por mensagem, nem por foto antiga que o celular resolve mostrar no aniversário de alguma coisa. Tem gatilho que entra pela porta da frente às sete da noite, de regata, e senta do seu lado.
Meu corpo reconheceu antes de mim. O coração disparou, a respiração mudou de ritmo, a mão ficou úmida no ferro — e a cabeça veio atrás, atrasada, tentando entender o que já tinha acontecido no peito. Junto veio a pergunta que não chegou a virar frase e ficou só como aperto entre as costelas: por que eu tenho que passar por isso? Não é sobre ver uma pessoa. É que ele é um pedaço vivo daquilo. É a prova andando de que houve um tempo em que eu estava dentro da minha casa, achando que estava sozinho com o meu marido, e havia gente orbitando em silêncio do lado de fora, esperando a vez.
Naquele minuto tudo o que eu construí em meses de conversa comigo mesmo evaporou. Toda a compreensão, todo o "ele não tem culpa", todo o raciocínio bonito que eu repetia deitado no escuro — sumiu em três segundos, e o que subiu foi bruto: raiva, nojo, vontade de atravessar a sala e dizer alguma coisa que doesse, vontade de que ele simplesmente deixasse de existir naquele lugar. Não resolveria nada, eu sei disso. Mas por alguns segundos parece que devolveria peso a uma balança que ficou torta demais.
Olhei em volta e todo mundo continuava normal. Um homem ajustando a carga, uma mulher rindo no telefone, o funcionário passando pano no aparelho. Cada um voltando para a sua rotina enquanto eu voltava para o que sobrou da minha. Não é que eles devessem saber de alguma coisa. É que dá uma sensação difícil de nomear e fácil de reconhecer: estar sem roupa numa sala cheia, com a minha história ali suando na esteira ao lado, disponível para qualquer um que soubesse ler.
O mais duro veio depois, no vestiário, com a mochila aberta no banco: quem abriu a porta não foi ele. Ele entrou. A porta foi aberta por dentro, por alguém que dorme comigo, e eu estava ali odiando o homem errado porque o certo é caro demais para odiar. Segurar essa diferença — entre quem causou e quem apenas representa — é o trabalho mais difícil que já me pediram dentro de uma relação que tenta continuar depois de uma quebra.
Então eu desloco. Fico com raiva do desconhecido porque sai mais barato, porque não me custa jantar em silêncio depois, porque não me obriga a olhar para quem eu amo e admitir o tamanho do estrago. Mas o corpo não se engana e não negocia: ele reage ao que vê, ao que lembra, ao que continua aberto. Enquanto isso não for resolvido de verdade, cada esbarrão desses vai reabrir a mesma coisa, no mesmo lugar, com a mesma facilidade.
E aí chega a outra camada, a que eu carrego no caminho de casa: quero seguir e não consigo largar. Seguir não é esquecer, e esquecer eu já sei que não vou. O que sobra é aprender a conviver com aquilo sem me desmanchar toda vez que a memória entra pela catraca de regata.
Sentei no banco entre uma série e outra e fiquei com isso na mão, sem levantar nada. Não é simples: preciso reconhecer que a minha dor não é exagero, que a raiva tem motivo, que o desconforto não é frescura minha — e, ao mesmo tempo, decidir uma coisa dura, que é não deixar aquilo continuar mandando na minha vida.
Porque eu já comecei a fazer as contas, e é aí que dá medo. Trocar de academia, que é a única perto de casa. Mudar o horário do treino. Evitar aquele bar, aquela rua, aquele grupo de amigos. Um dia desses eu vou estar treinando às cinco da manhã num lugar de que eu não gosto, do outro lado da cidade, só para não esbarrar com ninguém — e aí o meu mundo terá encolhido inteiro, e a conta fica ainda mais injusta do que já era.
Talvez o caminho não seja atravessar a sala e dizer alguma coisa para ele. Talvez seja chegar em casa e perguntar, com toda a honestidade que eu conseguir juntar: eu estou sendo cuidado aqui dentro? Porque nenhuma estratégia de fora cobre a falta de chão dentro de casa. Quando esse chão não existe, qualquer esbarrão vira tempestade.
Não por fraqueza minha. Porque ainda tem alguma coisa aqui pedindo para ser vista, reconhecida e, quem sabe, enfim resolvida.
Até lá eu levanto o peso, conto a repetição, olho o relógio na parede. Às vezes com carga, às vezes no esforço — e sempre com a mesma escolha calada acontecendo por dentro entre uma série e outra: continuar vivendo em função do que aconteceu, ou começar, devagar, a viver apesar disso.
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