Treinando com/o trauma

Não é preciso pensar muito para perceber quando alguém ainda mexe com você. Na verdade, pensar costuma chegar depois. O corpo percebe primeiro. Você está fazendo qualquer coisa comum, tentando atravessar o dia como atravessa todos os outros, e então aquela pessoa aparece. O lugar continua o mesmo. A rotina continua a mesma. Mas alguma coisa muda instantaneamente. É como se uma parte de você voltasse para um lugar que acreditava ter deixado para trás.

O mais desconfortável nesses encontros é que eles desmontam certas narrativas que contamos para nós mesmos. Você acredita que está melhor. Acredita que já entendeu o que aconteceu. Que a vida seguiu. E talvez tenha seguido mesmo. Mas basta um reencontro inesperado para perceber que algumas coisas não obedecem ao calendário que a gente gostaria de impor. Elas permanecem em algum lugar, silenciosas, até serem chamadas de volta por uma imagem, uma voz ou uma simples presença.

Nesses momentos, os sentimentos não chegam organizados. Não existe uma reflexão madura esperando para acontecer. Existe irritação. Existe desconforto. Existe uma vontade quase infantil de que aquela pessoa desapareça do seu campo de visão para que tudo volte ao normal. E talvez o mais frustrante seja perceber que isso não resolveria absolutamente nada. A presença incomoda porque toca em algo que já estava ali antes dela aparecer.

Também existe uma espécie de revolta difícil de explicar quando você olha ao redor e percebe que o mundo continuou funcionando para todo mundo. As pessoas seguem suas rotinas, fazem planos, conversam sobre coisas banais, enquanto você continua carregando partes de uma história que ainda pesam. Não porque os outros tenham obrigação de carregar esse peso junto, mas porque a dor costuma produzir uma sensação estranha de isolamento. Como se aquilo que ocupa tanto espaço dentro de você não existisse para mais ninguém.

Por isso a reação quase sempre procura um alvo visível. É mais fácil concentrar a raiva em quem está diante dos seus olhos do que encarar tudo aquilo que o encontro despertou. Só que o problema raramente está na cena presente. Está naquilo que ela reabre. Ninguém fica abalado por causa de alguns segundos de convivência. O que machuca é o que esses segundos conseguem trazer de volta.

E talvez seja essa a parte mais difícil de aceitar. Seguir em frente não significa apagar o que aconteceu. Nem significa chegar ao ponto em que nada mais provoca reação. Algumas experiências continuam existindo dentro da gente por muito tempo, mesmo quando deixam de ocupar o centro da vida. A questão não é eliminar a memória. É impedir que ela assuma o controle toda vez que reaparece.

Porque existe uma diferença enorme entre lembrar e continuar preso.

Quando certas situações ainda não encontraram um lugar dentro de nós, qualquer reencontro parece maior do que realmente é. A pessoa entra num ambiente e leva junto uma história inteira. Não a história dela. A sua. As perguntas sem resposta. As conversas que nunca aconteceram. As explicações que não vieram. Tudo aquilo que ficou suspenso.

Por isso evitar nem sempre resolve. Às vezes apenas reduz o tamanho do mundo. Você muda caminhos, altera horários, cria estratégias para não encontrar aquilo que incomoda. Durante algum tempo parece funcionar. Mas o problema continua intacto, apenas protegido da vista.
 
Chega uma hora em que o desafio deixa de ser escapar da lembrança e passa a ser outro: encontrar uma forma de continuar vivendo sem precisar reorganizar a própria vida em torno dela. Porque, no fim, a liberdade não aparece quando a memória desaparece. Ela aparece quando a memória deixa de decidir por onde você pode ou não caminhar.

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