Escrevi uma mensagem que nunca mandei. Escrevi três vezes, em noites diferentes, e apaguei todas — e durante muito tempo achei que aquilo era raiva. Não é. Aquilo aparece quando alguma coisa aqui dentro continua repetindo que a história terminou errada, que a conta não fechou, que eu fiquei com a parte pesada sem ter escolhido nada.
Porque aquilo não acabou no dia em que aconteceu. Continua acontecendo nas perguntas que ninguém respondeu, nas consequências que só eu carrego, na foto de viagem que eu fui procurar no perfil dele às duas da manhã e que mostrava a vida seguindo — emprego novo, gente nova, cara de quem dorme bem — enquanto eu ainda tentava descobrir o que fazer com o que tinha sobrado no chão. É desse lugar que nasce a fantasia da devolução.
Chamo de fantasia porque nunca funciona como eu imagino.
Tem uma parte de mim que acredita que, se ele sentisse o tamanho do que causou, alguma coisa se reorganizaria — como se houvesse uma balança esperando ser acertada em algum cartório, como se a dor pudesse ser repartida até cada um ficar com a metade que lhe cabe.
Sentimento não obedece a essa aritmética.
Já tive a chance duas vezes, e nas duas o revide não entregou nada. Trocou o foco por alguns minutos, veio um alívio curto, e depois sobrou um gosto ruim na boca e a mesma insônia de sempre. Porque o problema nunca esteve só no que ele fez. Está no que aquilo abriu dentro de mim.
E é isso que me mantém preso: para revidar eu preciso continuar ligado à história, revisitá-la todo dia, lembrar detalhe, remontar cena, alimentar uma conversa interna que já devia ter acabado e que continua acontecendo com as mesmas falas, na mesma ordem, com o mesmo final. Sem perceber, a minha tentativa de encerrar o assunto é justamente o que mantém o assunto vivo — respirando por aparelhos que sou eu quem liga toda manhã.
E não tenho vergonha de admitir esse impulso.
Ao contrário.
Ele diz o tamanho exato da ferida.
Quando alguém me atravessa de verdade, eu quero que aquilo seja reconhecido, que não desapareça como se nunca tivesse existido, que o estrago não fique todo hospedado em mim. Olhando de perto, o que eu chamava de vontade de revidar é outra coisa: é a necessidade de ser visto. De que exista, em algum lugar do mundo, alguém que saiba o que aquilo custou.
Não é a perda, nem a mentira, nem a quebra que continua doendo.
É que aquilo aconteceu e ninguém nunca soube o preço.
E como o reconhecimento não veio, a energia não evaporou: procurou outras saídas. Volta em pensamento repetido, em conversa imaginária no chuveiro, no ônibus, na fila do banco. Aparece em horário improvável. Vira uma irritação constante sem endereço nenhum, que acaba caindo na cabeça de quem estiver por perto e não tem culpa de nada.
E tem uma ironia difícil de engolir nisso tudo.
Na tentativa de devolver o peso a ele, sou eu que continuo carregando.
A história segue ocupando espaço.
Segue exigindo atenção.
Segue decidindo como eu enxergo as pessoas, as relações e a mim mesmo.
Por isso essa conta nunca fecha do jeito que eu queria. Não faltou a resposta perfeita nem a reparação definitiva: é que certas experiências não se encerram pela equivalência. Elas se encerram quando deixam de ser o lugar de onde eu continuo vivendo. A mensagem continua ali, na pasta de rascunhos. Um dia eu apago sem reler.
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