Durante muito tempo achei que a vontade de revidar tinha relação com raiva. Hoje não tenho tanta certeza. Acho que, em muitos casos, ela nasce de outro lugar. Surge quando alguma coisa dentro de nós continua dizendo que a história terminou de forma errada. Não necessariamente porque queremos machucar alguém, mas porque existe uma sensação persistente de que o peso foi distribuído de maneira desigual.
Quando uma quebra é profunda o suficiente, ela não termina no momento em que acontece. Continua existindo depois. Nas perguntas que ficam sem resposta. Nas consequências que só uma das pessoas parece carregar. Na percepção de que a vida do outro seguiu adiante enquanto você ainda tenta entender o que fazer com aquilo que sobrou. É nesse tipo de cenário que a fantasia da devolução costuma aparecer.
E eu chamo de fantasia porque ela raramente funciona da forma como imaginamos.
Existe uma parte de nós que acredita que, se o outro finalmente sentir o impacto do que causou, alguma coisa será reorganizada. Como se existisse uma espécie de equilíbrio emocional esperando para ser restaurado. Como se a dor pudesse ser redistribuída até que cada um carregasse exatamente a sua parte.
Só que sentimentos não obedecem a essa lógica.
Mesmo quando a oportunidade de revidar aparece, ela quase nunca produz o efeito prometido. O máximo que acontece é uma mudança de foco. Por alguns instantes surge a sensação de alívio, mas ela costuma durar pouco. Porque o problema nunca esteve apenas no que o outro fez. Estava também no que aquilo provocou dentro de você.
Talvez seja por isso que a vontade de devolver algo mantenha tantas pessoas presas ao que aconteceu. Para revidar, é preciso continuar conectado à história. É preciso revisitá-la repetidamente, lembrar detalhes, reconstruir cenas, alimentar uma conversa interna que já deveria ter terminado. Sem perceber, a tentativa de encerrar o assunto acaba exigindo que ele permaneça vivo.
E não acho que exista nada de vergonhoso em admitir esse impulso.
Pelo contrário.
Ele costuma dizer muito sobre o tamanho da ferida.
Quando alguém nos atravessa de forma significativa, é natural querer que essa experiência seja reconhecida. Que não desapareça como se nunca tivesse existido. Que o impacto não fique restrito a quem o sofreu. Talvez seja por isso que, olhando mais de perto, a vontade de revidar pareça menos ligada à vingança do que à necessidade de reconhecimento.
O que machuca nem sempre é apenas a perda, a mentira ou a quebra em si.
Muitas vezes é a sensação de que aquilo aconteceu e ninguém realmente compreendeu o que custou.
Quando esse reconhecimento não vem, a energia não desaparece. Ela procura outros caminhos. Volta em pensamentos recorrentes. Aparece em conversas imaginárias. Surge em momentos aleatórios do dia. Às vezes se transforma numa irritação constante que parece não ter endereço definido.
E existe uma ironia difícil de aceitar nisso tudo.
Na tentativa de devolver o peso ao outro, acabamos sendo nós a continuar carregando-o.
A história permanece ocupando espaço.
Continua exigindo atenção.
Continua influenciando a forma como enxergamos pessoas, relações e até a nós mesmos.
Por isso algumas contas emocionais nunca fecham da maneira que gostaríamos. Não porque faltou uma resposta perfeita ou uma reparação definitiva. Mas porque certas experiências não encontram encerramento através da equivalência. Elas encontram encerramento quando deixam de determinar o lugar a partir do qual continuamos vivendo.
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