Não sei exatamente quando mudei. Essa talvez seja a parte mais difícil de perceber. Porque mudanças importantes raramente acontecem de uma vez. Não existe um dia específico para marcar no calendário. Quando você olha para trás, encontra episódios, conversas, decepções, algumas perdas. Mas nenhum deles, sozinho, explica tudo. Ainda assim, em algum momento, percebe que já não ocupa o mundo da mesma forma.
Eu era mais leve. Não no sentido idealizado que a memória costuma construir, mas de um jeito bastante concreto. Confiava mais rápido. Falava o que pensava sem revisar mentalmente cada frase antes. Não sentia necessidade de antecipar cenários, calcular intenções ou observar sinais o tempo inteiro. Havia uma espontaneidade que hoje me parece distante. Não porque tenha desaparecido completamente, mas porque passou a dividir espaço com outras coisas que vieram depois.
Acho que foi isso que certas experiências fizeram comigo. Elas não me transformaram de uma vez. Foram me ensinando pequenas cautelas. Algumas delas necessárias. Outras talvez nem tanto. Depois de algumas quebras, você aprende a prestar atenção em coisas que antes passavam despercebidas. Depois de algumas decepções, entende que nem toda aproximação é aquilo que parece ser. Depois de se machucar algumas vezes, cria maneiras de evitar que a mesma dor encontre o mesmo caminho de volta.
Durante muito tempo, essas estratégias parecem funcionar. E talvez realmente funcionem. Existe um conforto inicial em sentir que você está mais preparado, mais atento, menos vulnerável. O problema aparece quando aquilo que nasceu como proteção começa a se tornar parte da estrutura. Sem perceber, você passa a viver a partir dela. Já não evita apenas o que pode machucar. Evita também situações que poderiam dar certo. Evita conversas. Evita aproximações. Evita riscos que talvez nem sejam riscos.
Por isso nunca gostei muito quando alguém diz simplesmente que uma pessoa ficou fria. A frase parece explicar algo, mas geralmente explica muito pouco. Quase ninguém endurece do nada. Existe sempre uma história anterior. Um conjunto de experiências que foi reorganizando a forma como aquela pessoa se relaciona com o mundo. E nem todo endurecimento nasce da falta de afeto. Às vezes nasce exatamente do contrário.
Também desconfio um pouco da nostalgia que sentimos por versões antigas de nós mesmos. É fácil olhar para trás e sentir falta de quem éramos quando tudo parecia mais simples. O difícil é lembrar que aquela versão também não sabia coisas que hoje sabemos. Ela carregava menos peso, mas carregava menos compreensão também. Talvez parte da leveza viesse justamente disso.
O problema é que consciência e tranquilidade nem sempre caminham juntas. Quanto mais você entende sobre as fragilidades das pessoas, sobre as contradições das relações e sobre a facilidade com que certas coisas podem se romper, menos automático se torna confiar. Não porque o mundo tenha ficado pior. Mas porque você deixou de enxergá-lo da mesma forma.
E é aí que a linha começa a ficar confusa.
Porque amadurecer exige algum grau de cautela. Exige discernimento. Exige reconhecer limites que antes passavam despercebidos. Só que existe um ponto em que a cautela deixa de servir à vida e passa a organizá-la. Quando isso acontece, a proteção começa a cobrar um preço que talvez não valha mais a pena pagar.
Quando alguém me diz que eu mudei, não acho que esteja necessariamente errado. Mudei mesmo. Seria estranho atravessar tudo o que atravessei e permanecer igual. O que me interessa hoje não é recuperar uma versão antiga de mim mesmo, como se ela estivesse congelada em algum lugar esperando para ser reencontrada. Também não é aceitar toda mudança como se ela fosse automaticamente positiva.
A pergunta que faz mais sentido é outra: quais dessas defesas ainda são necessárias e quais continuam existindo apenas por hábito?
Porque existe uma diferença enorme entre aprender com aquilo que nos aconteceu e continuar vivendo como se tudo ainda estivesse acontecendo.
A versão mais leve de mim não desapareceu. Ela continua aqui, em algum lugar. Mas a pessoa que existe hoje também sabe coisas que aquela versão nunca precisou aprender. Talvez o desafio não seja escolher entre uma e outra. Talvez seja descobrir o que ainda merece ser carregado e o que já pode ser deixado para trás.
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