Alguém abriu uma fotografia minha de dez anos atrás no celular e passou para eu ver. Levei um susto com o meu próprio rosto — não pela idade, mas pelo jeito de olhar a câmera sem calcular nada. Não sei exatamente quando mudei. No espelho, todo dia, eu sou o mesmo, com a mesma cara amassada de sono; só naquela tela é que eu enxerguei a distância. Quando procuro o dia exato, encontro episódios soltos, conversas, decepções, algumas perdas — e nenhum deles explica coisa alguma sozinho.
Naquela fotografia eu era mais leve, e não na versão bonita que a memória fabrica quando quer doer. Confiava mais rápido. Dizia o que pensava sem passar a frase por três revisões antes de soltar. Não precisava antecipar cenário, medir intenção, ler o que ninguém tinha dito. Aquela espontaneidade hoje me parece de outra pessoa — não porque tenha morrido, mas porque passou a dividir a casa com coisas que chegaram depois e nunca mais foram embora.
Ninguém me transformou de uma vez. Fui aprendendo pequenas cautelas, uma por uma, como quem ensina uma criança a atravessar a rua: olha para um lado, olha para o outro, espera. Depois de algumas quebras aprendi a reparar no que antes passava batido. Depois de algumas decepções entendi que nem toda aproximação é o que parece ser. Depois de me machucar três, quatro vezes no mesmo lugar, o meu corpo criou sozinho um jeito de impedir que a mesma dor voltasse pelo mesmo caminho. Eu não decidi nada disso. Foi acontecendo enquanto eu estava ocupado com outra coisa.
E funcionou por um bom tempo. Existe um conforto real em se sentir mais preparado, mais atento, menos exposto — a sensação de finalmente ter aprendido a lição que a vida vinha repetindo em voz alta. Até que aquilo deixou de ser roupa e virou estrutura. Hoje eu não evito só o que machuca: evito também o que poderia dar certo. Evito a conversa. Evito a aproximação. Evito risco que, olhando bem de perto, nem era risco — era só coisa nova.
Já me disseram que eu "fiquei frio", e essa frase tem cara de explicação sem explicar nada. Ninguém endurece do nada: há sempre uma história antes, um conjunto de coisas que foi reorganizando o modo de habitar o mundo. E nem todo endurecimento nasce de falta de afeto — o meu nasceu do contrário, de ter amado com tudo o que eu tinha e descoberto que aquilo não bastava para proteger ninguém. Nem a mim.
Também desconfio da saudade que eu sinto daquele sujeito da fotografia. É fácil olhar para ele e sentir falta de quando tudo parecia mais simples; difícil é lembrar que ele não sabia de nada, que carregava menos peso porque carregava menos entendimento, e que boa parte da leveza dele vinha apenas da sorte de ainda não ter aprendido certas coisas.
Quanto mais eu entendo as fragilidades das pessoas, as contradições das relações, a facilidade assustadora com que algumas coisas se rompem numa tarde qualquer, menos automático fica confiar. Não é que o mundo tenha piorado. Eu é que perdi a capacidade de vê-lo como via.
E aí a linha fica turva.
Saí de uma conversa no ano passado no minuto exato em que ela ia desandar, e isso eu devo à cautela — alguma dose dela é ganho, não perda. Enxergar limite que antes passava despercebido me poupou de coisas que eu não quero mais viver. Só que existe um ponto, quase invisível, em que a cautela deixa de servir à vida e passa a comandá-la. Desse ponto em diante eu venho pagando em encontro que não aconteceu, em conversa que não puxei, em gente boa que passou de raspão e seguiu sem nunca saber que passou.
Quando me dizem que eu mudei, não estão errados. Mudei mesmo — seria esquisito atravessar tudo o que atravessei e continuar igual, teria sido desperdício de dor. Só não me interessa mais resgatar uma versão antiga de mim, como se ela estivesse guardada intacta em algum lugar esperando ser reencontrada. Nem aceitar toda mudança como se fosse automaticamente ganho.
A pergunta que sobra é outra: quais dessas defesas ainda são necessárias, e quais continuam de pé apenas por hábito?
Porque uma coisa é aprender com o que aconteceu. Outra é continuar vivendo como se ainda estivesse acontecendo.
O sujeito leve daquela fotografia não morreu. Continua aqui, em algum canto, e às vezes aparece sem avisar — numa risada alta demais no meio da rua, numa vontade repentina de ligar para alguém às onze da noite. Mas quem existe hoje sabe coisas que ele nunca precisou aprender. Talvez não seja o caso de escolher entre os dois. Talvez seja descobrir, de tudo o que venho carregando há anos, o que ainda merece ser carregado — e o que já pode ser posto no chão, ali mesmo, no meio do caminho.
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