Seguir em frente pode ser só outra forma de evitar

Faz meses que ninguém toca no assunto aqui em casa. A rotina se reorganizou, as conversas tomaram outro rumo, a gente até ri de bobagem no jantar — e de fora deve parecer que aquilo ficou para trás. Não ficou. Parar de falar de uma coisa e encontrar lugar para ela dentro de mim são movimentos diferentes, e só o primeiro aconteceu por aqui. É como farpa que entrou fundo e ninguém tirou: a pele fecha por cima, a marca some, e a coisa continua alojada lá dentro, latejando de tempos em tempos, sempre que alguém encosta sem querer.

Ele apaga a luz e dorme em dez minutos; eu fico acordado remontando a mesma conversa pela enésima vez. A gente vive em fusos diferentes e nenhum de nós nunca disse isso em voz alta. Eu ainda procuro data, conto hora, tento entender o que houve, monto e desmonto a linha do tempo como quem mexe num quebra-cabeça que não fecha. Ele prefere seguir, desviar do assunto, concentrar tudo no presente e no que vem depois. Nenhum dos dois está sendo absurdo, e é exatamente isso que complica. O problema é as duas coisas acontecendo ao mesmo tempo, dentro da mesma casa, na mesma cama, a trinta centímetros de distância.

Porque aquilo que não encontra espaço não desaparece.
No máximo muda de forma.

Volta num silêncio que se estica demais no caminho de casa. Volta numa irritação absurda por causa de uma louça, de um atraso, de nada. Volta como uma distância que os dois percebem e que ninguém nomeia durante semanas seguidas. É por isso que essas brigas confundem: o que eu estou sentindo quase nunca pertence àquele minuto. Tem sempre alguma coisa mais velha atravessando a cena, entrando na conversa sem ter sido convidada e puxando cadeira.

Chamam isso de dificuldade de superar. Nem sempre é.

Não é que eu esteja incapaz de seguir em frente. É que eu nunca tive a chance de atravessar aquilo de verdade. Continuar vivendo e processar uma coisa são movimentos diferentes, e um acontece muito bem sem o outro: dá para levantar todo dia, trabalhar, rir, fazer plano de viagem, e ao mesmo tempo carregar uma coisa inteira sem digerir, parada no meio do peito feito pedra que não passa.

Levei tempo para entender por que aquilo não passava mesmo com toda a boa vontade da minha parte. É que aquilo não foi construído sozinho — e por isso não se resolve sozinho. Há pergunta que depende de conversa. Há ferida que só perde força depois de reconhecida por quem a abriu. Há situação em que ser compreendido, só isso, muda inteiramente o peso do que se carrega. Como esse reconhecimento nunca veio, eu fiquei sozinho segurando uma coisa que era para ser segurada a dois.

E a casa dá um jeito de continuar. A gente segue junto, a convivência funciona, os compromissos são cumpridos, os aniversários comemorados, as fotos tiradas e postadas no domingo à noite. Só que funcionar e oferecer descanso são coisas diferentes. Vivemos assim há anos — não estamos bem, não estamos acabados, apenas aprendemos a conviver com um corpo estranho no meio da sala que ninguém mais nomeia. Todo mundo desvia dele ao passar. Ninguém fala dele. Ele continua ali, exatamente onde caiu.

Por isso eu oscilo entre o silêncio absoluto e a necessidade de puxar o mesmo assunto outra vez, no pior momento possível, quando tudo parecia calmo — e ele me olha com aquela cara de quem já cansou, e tem motivo para cansar. Não é insistência. Não é apego ao sofrimento, como me dizem naquele tom. É uma coisa ainda procurando forma de ser compreendida que, não achando, sai como pode. E sai torta.

Porque atravessar certas coisas quase nunca é movimento individual.

Já me disseram que basta decidir seguir em frente. É bonito no papel, e a vida é bem mais suja do que isso. Há situação que exige presença, conversa, reconhecimento e uma boa dose de desconforto dividido — daquele que ninguém quer e que precisa acontecer assim mesmo. Como nada disso veio, o que se instalou aqui dentro não foi superação. Foi adaptação. O organismo aprendeu a viver com a farpa dentro.

E adaptação dura anos.
O que ela não faz é fechar o que ficou aberto.

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