Dormir sobre o local de uma chacina

Troquei o lençol três vezes na primeira semana. Não era sujeira e eu sabia que não era — era vontade de que alguma coisa naquele quarto voltasse a ser só o que parecia ser. Trocar lençol é fácil; o que está embaixo dele não sai na máquina. Algumas tragédias terminam para todo mundo, menos para quem continua morando entre os escombros: o acontecimento passa, as explicações são dadas, a vida dos envolvidos segue adiante, e entender não estica lençol nenhum. A consciência não tem autoridade para reorganizar o que foi destruído. De longe, qualquer um fala com uma facilidade impressionante sobre seguir em frente. De perto, certas experiências não acabam quando o acontecimento acaba: elas continuam existindo nos lugares que atravessaram.

O colchão embaixo continuou o mesmo, com a marca do meu corpo de um lado e a do corpo dele do outro. É por isso que a palavra que me vem não é crise, nem discussão, nem decepção — nenhuma dessas dá conta do que fica num colchão. Certas experiências se parecem mais com uma chacina emocional. Não porque alguém tenha morrido de verdade, mas porque determinadas descobertas deixam um cenário de devastação difícil de ignorar. Quando tudo termina, a confiança já não está onde estava. A sensação de segurança desaparece. A forma como aqueles cômodos eram habitados desaparece. A inocência com que certas coisas eram vistas desaparece. E não sobra apenas a lembrança do que aconteceu: sobra a obrigação de continuar dormindo exatamente onde aconteceu.

Contei a história para algumas pessoas e todas perguntaram pelo ato. Perguntaram pela descoberta, pelo erro, pela data, por quantas vezes. Ninguém perguntou pelo lençol. Ninguém perguntou como é continuar ocupando os mesmos espaços depois que eles deixaram de parecer os mesmos, porque essa parte não rende conversa — é lenta, é doméstica, e acontece toda noite sem testemunha. Sobreviver ao acontecimento é uma coisa. Continuar morando dentro dele é outra completamente diferente.

Deito a cabeça no travesseiro e a memória chega antes do sono, sempre nessa ordem. Dormir sobre o local de uma chacina não é olhar para sangue espalhado pelo chão: é saber o que aconteceu naquele chão e deitar ali mesmo assim. É conhecer a história daquele espaço e descobrir que certos lugares deixaram de ser apenas lugares — não porque mudaram fisicamente, mas porque quem olha para eles mudou. Ele dorme de costas para a janela, do mesmo lado de sempre, e pega no sono depressa. A cama continua sendo a mesma. As paredes continuam sendo as mesmas. O quarto continua sendo o mesmo. A experiência de habitar tudo isso já não é.

A raiva chega junto com o cheiro do amaciante.
Porque quem passou por ali foi embora.
Quem participou da destruição foi embora.
Quem recebeu aquilo que veio buscar foi embora.

Saíram pela porta levando apenas a parte que lhes interessava daquela história, e ninguém volta para lavar nada. Não precisaram permanecer quando chegou a hora das consequências. Não precisaram reaprender a descansar. Não precisaram reconstruir a própria sensação de segurança. Não precisaram encarar o desconforto de perceber que certos espaços deixaram de ser neutros. Foram visitantes de uma tragédia cujos destroços nunca precisaram administrar.

Eu fiquei, e o colchão ficou comigo.

Virei o colchão sozinho num sábado de manhã, empurrando com o joelho, achando que aquilo resolvia alguma coisa — e o que eu estava fazendo, na verdade, era assumir uma tarefa que sobrou para mim. Fiquei responsável por transformar de novo em lar um lugar que deixou de parecer seguro. Fiquei responsável por reaprender a dormir onde a confiança foi destruída. Fiquei responsável por conviver diariamente com vestígios que ninguém mais é obrigado a enxergar. Há algo profundamente injusto nessa distribuição: a destruição foi coletiva no momento em que aconteceu, e a reconstrução ficou solitária quase imediatamente depois.

Me disseram, num almoço, que o melhor era esquecer, e quem disse isso ia dormir naquela noite na própria cama. Esquecer é palavra confortável para quem não convive com o cenário. Esquecer é fácil quando a tragédia aconteceu na casa dos outros. Difícil é ser a pessoa que continua voltando para o mesmo lugar todos os dias. Difícil é perceber que o mundo espera normalidade enquanto eu ainda estou recolhendo destroços. Difícil é descobrir que sobreviver ao acontecimento foi apenas a primeira parte do problema.

Ninguém vê a troca do lençol.
As pessoas enxergam apenas quem continuou vivo.

Não enxergam quem precisou reaprender a descansar. Quem precisou reaprender a ocupar determinados espaços. Quem precisou reaprender a existir dentro de uma realidade que já não parecia familiar. A sobrevivência é visível. A reconstrução quase nunca é.

O quarto mudou de cortina, o guarda-roupa mudou de parede, o colchão continua ali com as duas marcas. Algumas tragédias nunca terminam completamente: o acontecimento fica para trás, as pessoas envolvidas seguem seus caminhos, o tempo avança. Deixar uma tragédia para trás e continuar dormindo em cima dela, porém, são coisas distintas. Algumas pessoas visitaram o local do crime e foram embora. Outras permaneceram ali, tentando transformar ruína em casa outra vez.

Estico o lençol limpo, ajeito os cantos, apago a luz e deito em cima de tudo o que continua embaixo. A parte mais cruel é essa: não basta sobreviver à chacina. Há noites em que parece que fui condenado a dormir sobre ela.

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