Sobre habitar os destroços

Algumas traições não terminam quando a porta se fecha.
Elas ficam nos objetos.
Ficam nos lugares.
Ficam nos rituais mais comuns.
Dormir deixa de ser apenas dormir.
Deitar deixa de ser apenas deitar.
O corpo encontra repouso onde a cabeça encontra evidência.
E, enquanto o mundo espera que você siga em frente, existe uma parte sua ainda tentando entender por que foi você quem ficou encarregado de conviver com os destroços.


Deito e fico olhando o ventilador de teto girar. As três pás passam na mesma ordem, o ar bate na mesma parte do rosto, e eu conto as voltas como quem espera que em alguma delas o quarto volte a ser só um quarto. Dormir deveria ser a coisa mais banal do mundo — apagar a luz, ajeitar o travesseiro, encerrar o dia. Fazemos isso milhares de vezes sem pensar; o corpo aprende o caminho e a rotina cuida do resto. É por ser tão banal que fica difícil explicar o que acontece quando um lugar destinado ao descanso deixa de parecer neutro.

As pás continuam as mesmas, o barulho continua o mesmo, o parafuso do meio continua com aquela folga que faz o teto tremer de leve. Nada mudou ali em cima, e é esse o ponto: certas experiências não ficam apenas na memória, ficam nos espaços. Não porque exista alguma coisa visível para encontrar, mas porque saber muda o modo de enxergar o que antes parecia comum. Uma cama deixa de ser apenas um móvel. Um quarto deixa de ser apenas um cômodo. Objetos que participavam da rotina em silêncio passam a carregar uma história que já não dá para ignorar. A matéria continua intacta. O que mudou foi o significado.

Levanto às seis, estico o lençol, desligo o ventilador e vou trabalhar — e às onze da noite ligo tudo de novo, na mesma velocidade de sempre. É aí que mora a diferença entre superar um acontecimento e continuar convivendo com os lugares onde ele aconteceu: a primeira tarefa pertence ao tempo, à reflexão, à elaboração emocional; a segunda pertence ao cotidiano, e o cotidiano é bem menos generoso, porque exige repetição. Exige voltar aos mesmos espaços, tocar os mesmos objetos, atravessar os mesmos ambientes e agir como se determinadas informações não existissem. Elas existem. E, uma vez conhecidas, passam a fazer parte da paisagem.

Me disseram para virar a página, e eu virei a página — o que ninguém explicou foi como se vira um quarto. A irritação com conselho simplificado sobre seguir em frente raramente é só emocional: não se trata de decidir esquecer, porque o esquecimento não funciona por decreto, muito menos quando a lembrança está incorporada aos lugares onde a vida acontece. Recordar alguma coisa de vez em quando é uma experiência. Ser lembrado dela toda vez que se entra num cômodo específico, ou se repete um gesto que antes parecia inocente, é outra completamente diferente.

Passei a contar as voltas das pás até pegar no sono, e algumas noites chego a números que eu preferia não saber. Não é o choque da descoberta que faz isso — aquele veio com ruptura e barulho. Esse desgaste é outro: mais lento, mais calado. É a exaustão de precisar reconstruir a neutralidade de coisas que deixaram de ser neutras. A exaustão de tentar descansar num lugar que já não oferece a mesma sensação de segurança. A exaustão de perceber que parte do que se perdeu não estava só na relação, mas no jeito como certos espaços eram habitados.

Ele dorme antes de mim, do mesmo lado de sempre, com o braço para fora da cama, e o ventilador gira sobre nós dois igual. Com o tempo algumas dessas marcas perdem intensidade e outras não: algumas deixam de provocar dor e passam a provocar apenas estranhamento; outras permanecem como rachadura fina na superfície da rotina. A parte mais injusta é essa — quem provocou a ruptura quase nunca fica para conviver com os vestígios dela. A reconstrução costuma sobrar para quem continuou habitando os escombros.

O ventilador continua girando sobre a mesma cama, noite após noite, e vai continuar quando eu já tiver esquecido por que comecei a contar as voltas. Algumas feridas duram mais do que o esperado não porque o acontecimento continue acontecendo, mas porque seus rastros continuam nos lugares onde a vida insiste em seguir. Existem dores que não moram na memória. Moram nos espaços que a gente foi obrigado a continuar chamando de casa.

0 Respostas ao Registro:

Postar um comentário

Registro solar emitido por João Allex 🪐 Transmitido pela nave O Menino Astronauta | Todos os sinais reservados