Solidão com testemunha

Ele está ao meu lado, no carro, no posto de gasolina, na festa — o corpo todo ali, encostado em mim, o cheiro dele familiar, a mão dele às vezes pousando na minha coxa como se isso já bastasse. E, no entanto, ausente. Porque presença não é distância zero entre dois corpos. É outra coisa, mais difícil de provar e mais fácil de sentir: é o que a pessoa faz com o que você diz, depois que você já disse. É se algo do que saiu da sua boca sobrevive dentro da cabeça dele por mais de um minuto.

Eu falo, e o polegar dele desliza tela abaixo, um movimento tão automático quanto respirar. Falo de novo, mais alto por dentro dessa vez, embora a voz continue a mesma, e ele confunde meu silêncio com reprovação, confunde minha concordância com um olhar torto — porque estava noutro lugar, sempre noutro lugar, um lugar feito de luz azul e notificações, e volta para mim já errando a cena inteira, como quem chega no meio do filme e finge que assistiu do começo. Não é possível ouvir quem não está. E ele não está, mesmo quando está.

Presentes genéricos, comprados sem memória de nada que eu tenha dito; perguntas repetidas, a mesma pergunta de semana passada, feita de novo como se fosse a primeira vez; o mesmo assunto contado duas vezes porque da primeira ele simplesmente não guardou nada — nem o nome, nem o motivo, nem a data. Pequeno, cada um desses instantes, quase ridículo de tão pequeno quando contado sozinho. Somados, formam uma casa vazia onde deveria haver alguém me esperando à mesa, com a comida ainda quente e os olhos voltados para a porta.

Amar, para mim, sempre foi isso: carregar o outro para dentro das próprias escolhas, mesmo quando ele não está no quarto, mesmo quando ele nunca vai saber que foi carregado. Lembrar o que ele disse gostar, seis meses atrás, numa frase solta, jogada fora sem querer, e acertar o presente sem precisar perguntar nada, como quem lê um mapa que só eu decidi desenhar. E quando esse cuidado não volta na mesma moeda, a pergunta que fica não é "por que você não ouviu" — essa pergunta é fácil demais, quase covarde. A pergunta de verdade é: por que eu não bastei para que você quisesse ouvir?

Um casal pode dividir sete anos de cama, sete invernos, sete aniversários, e ainda assim nunca dividir uma frase até o fim. Pode-se estar acompanhado e, ainda assim, falar sozinho, a própria voz voltando sem eco, batendo numa parede que tem formato de gente mas função de tijolo. Há quem chame isso de rotina. Eu chamo pelo nome certo: solidão com testemunha.

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