O problema não é desejar homens

O que eu desejo, quase sempre, é uma parte. O antebraço apoiado no balcão. A nuca quando o cara vira para procurar alguém no meio da rua. A voz baixa que só se ouve porque a pessoa está perto. Um cheiro que atravessa um corpo e chega até o meu sem pedir licença. Nada disso vem solto, no entanto: vem grudado num homem — e junto do homem vem o telefone dele, o histórico dele, o jeito dele de sumir, as conversas que ele mantém abertas em outro lugar, o que ele faz quando ninguém está olhando. O problema não é desejar homens. O problema é que, depois de certas experiências, desejar homens também passa a significar desejar o lugar exato onde a mentira, a instabilidade e a humilhação já aprenderam a entrar. O corpo continua indo na mesma direção e já não chega sozinho: vem acompanhado de memória, de comparação, de vigilância, de um cansaço moral difícil de explicar e de uma vergonha por continuar querendo justamente aquilo que tantas vezes se mostrou incapaz de sustentar o mínimo. Em teoria o desejo deveria carregar alguma promessa de prazer, descoberta, intimidade, reconhecimento, companhia; deveria haver nele ao menos a chance de uma experiência boa, ou pelo menos limpa. A experiência tem o péssimo hábito de contaminar o que antes parecia simples: em algum momento o que era apenas atração deixa de ser apenas atração — continua sendo homem, continua sendo desejo, continua sendo impulso, e já chega misturado com a lembrança de tudo o que foi capaz de vir junto da última vez.

E não vem grudado só o homem. Vêm grudados os outros, todos eles, presos naquele mesmo ombro que eu estava achando bonito dois segundos atrás. O que era um sujeito qualquer numa quarta-feira passa a ser também o portador possível de um roteiro que eu conheço de cor. Certas experiências afetivas fazem isso: não destroem a capacidade de desejar, alteram violentamente o terreno para onde o desejo aponta. O homem deixa de ser apenas alguém capaz de despertar curiosidade, excitação, afeto ou encantamento e passa a ser alguém que talvez minta com naturalidade, que talvez precise da validação constante de outras pessoas, que talvez chame de liberdade o que na prática é só incapacidade de sustentar responsabilidade afetiva, que talvez queira a segurança de um vínculo sem abrir mão da adrenalina de agir como se estivesse sozinho no mundo. A tragédia não está apenas em encontrar homens assim. Está em perceber que, depois de certa altura, a cabeça já não consegue olhar para um homem novo sem que todas essas possibilidades cheguem antes dele. Não é que todo homem vire suspeito automaticamente — é que nenhum chega mais sozinho.

Então eu tento descolar. Olho para o antebraço e tento que seja só aquele antebraço, daquele homem, naquela noite, sem os outros pendurados nele. É um trabalho, e ninguém vê que estou trabalhando. O desejo fica exaustivo assim: não por desaparecer, mas por já não ser espontâneo. Ele exige administração. Exige esforço interno para impedir que a memória tome conta do presente. Exige separar o homem que está na minha frente dos que vieram antes, das promessas quebradas, das ambiguidades transformadas em rotina, das migalhas tratadas como afeto, da humilhação de descobrir que a pessoa que dividia a vida comigo também dividia disponibilidade, fantasia ou atenção com o resto do mundo. Em condições normais, desejar alguém é aproximação. Depois de certas experiências, vira também autodefesa: o desejo continua existindo e precisa atravessar um corredor inteiro de suspeitas antes de chegar a qualquer lugar. Isso muda tudo, porque o que deveria nascer como impulso, interesse ou encantamento passa a vir misturado com medo, cansaço e uma vontade quase ridícula de não ter que lidar com nada daquilo de novo.

Chega uma hora em que eu já não olho para a nuca: olho para o telefone que ele deixou virado para baixo na mesa. Examino o homem antes de desejar o homem, e o que eu procuro não é quem ele é — é o que ele pode fazer. De fora, isso parece exagero, irritação gratuita com um gênero inteiro. Para quem já se machucou o suficiente, porém, o homem deixa de ser lido apenas como indivíduo e passa a ser lido também como categoria de risco. Não porque todos sejam iguais, não porque a experiência autorize uma tese preguiçosa, mas porque a repetição produz uma associação defensiva difícil de desfazer. O cérebro traumatizado não está interessado em justiça conceitual: está interessado em reduzir a chance de nova destruição. Então aproxima padrões, junta cenas, faz estatística emocional, transforma coincidência em alerta e começa a agir como se desejar homens fosse, por si só, um gesto de exposição. A pessoa continua olhando, continua querendo, continua se encantando, continua imaginando intimidade — e já não consegue fazer nada disso sem que uma parte de si pergunte o tempo todo quando virá a mentira, quando virá a fuga, quando virá a necessidade de validação externa, quando virá o flerte escondido, o interesse oportunista, o abandono disfarçado de crise pessoal. O homem desejado chega sempre com um inventário de danos pendurado no corpo.

A parte que eu quero não existe separada. Ninguém entrega só o ombro, só a voz, só o modo de escutar; para ter aquilo é preciso aceitar o inteiro, com tudo o que o inteiro carrega. Daí nasce uma solidão muito específica — não a solidão simples de estar sem ninguém, mas a de continuar desejando um lugar que já não parece habitável. No fundo o conflito não é entre desejo e moralidade, nem entre libido e romantismo: é entre desejo e segurança. Entre o que o corpo ainda quer e o que a experiência já ensinou a temer. Entre a vontade de amar e a vergonha de ainda acreditar na possibilidade de um amor que não humilhe. Entre a necessidade de vínculo e a sensação de que, dentro de certos circuitos, vínculo virou apenas nome bonito para um acordo precário em que uma pessoa oferece estabilidade e a outra oferece presença intermitente, migalha emocional e a promessa vaga de que talvez, um dia, esteja pronta para levar aquilo a sério. Quando o desejo continua apontando para esse território, deixa de ser apenas força erótica e vira também condenação íntima: a de continuar voltando, em pensamento ou em afeto, ao mesmo lugar onde a confiança aprendeu a sangrar.

E mesmo sabendo de tudo isso, eu continuo achando bonito um homem que se abaixa para amarrar o tênis. O corpo não desaprendeu nada. Essa é a parte humilhante: a decepção não mata o encantamento. Mesmo depois do estrago, o corpo continua reconhecendo beleza, presença, inteligência, voz, cheiro, humor, masculinidade, doçura, atenção, promessa. Continua querendo o toque, a conversa, a intimidade, o sexo, a escolha, a reciprocidade, o privilégio de ser visto de um jeito que não seja provisório. É cruel porque impede qualquer solução fácil — se o desejo morresse junto com a confiança, a equação seria menos violenta. Ele sobrevive, e ao sobreviver obriga a pessoa a conviver com uma contradição degradante: continuar desejando aquilo que já não parece digno de confiança. Continuar se sentindo atraída por um universo que tantas vezes se apresentou como desordem, egoísmo, fuga, duplicidade e instabilidade. Continuar precisando encontrar um jeito de não transformar cada homem novo no réu dos homens anteriores, sem por isso fingir que a repetição não existiu.

Continuo desejando partes de homens. A diferença é que agora eu sei o tamanho do que vem grudado nelas, e ainda assim estico a mão. É isso que certas experiências fazem com o desejo entre homens: não o destroem, tornam-no pesado. Arrancam dele a inocência, a leveza e a neutralidade. Transformam o encontro em análise de risco, o interesse em cautela, a aproximação em triagem e a esperança em algo quase constrangedor. O problema não é desejar homens. O problema é que, depois de certa altura, desejar homens também pode significar desejar o lugar exato onde a mentira, a instabilidade e a humilhação já aprenderam a entrar sem pedir licença.

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