Quem fica por inteiro também parte por inteiro

Meu volume veio travado num ponto e não desce. Não é que eu escolha ouvir alto: é que tudo chega assim, com o ruído de fundo junto, o chiado da geladeira junto, a mudança de tom numa palavra junto. Pouca gente fala do cansaço de viver desse jeito. Existe uma fantasia de que sensibilidade é apenas uma qualidade bonita, quase poética — como se perceber mais, se importar mais e viver os afetos com profundidade fosse sempre desejável. Sentir intensamente também desgasta, e desgasta porque o mundo raramente chega com a mesma força com que é recebido: alguém fala baixinho uma frase de passagem e ela entra aqui dentro no volume de um grito.

Há pessoas que atravessam relações, despedidas e mudanças mantendo certa distância interna. Não sentem menos — conseguem criar compartimentos, encerrar assuntos, relativizar acontecimentos e seguir adiante sem carregar cada experiência por muito tempo. É gente que consegue baixar o som quando a música acaba. Outras não funcionam assim: absorvem, guardam, processam. Continuam pensando numa conversa dias depois. Continuam sentindo uma ausência muito tempo depois de ela acontecer. Continuam habitando emocionalmente lugares que os outros já deixaram para trás.

Volume alto não amplifica só a música: amplifica o ruído. Sentir muito não é apenas amar muito — é prestar atenção demais. É notar pequenas mudanças de comportamento, perceber quando uma voz parece diferente, lembrar detalhes que ninguém mais registrou, carregar palavras por anos porque elas encontraram algum lugar sensível aqui dentro. A intensidade não está só nos grandes acontecimentos: está principalmente no jeito como certas pessoas escutam as coisas aparentemente pequenas.

E a primeira coisa que dizem, sempre, é para abaixar. Que eu penso demais, analiso demais, me importo demais — como se houvesse algo inadequado em viver as próprias emoções sem anestesia, como se toda sensibilidade precisasse ser reduzida a uma medida mais confortável para quem está do lado de fora escutando.

Mas intensidade não é uma escolha tão simples.

Ninguém acorda de manhã e decide guardar determinada ausência por meses, nem se importar profundamente com algo que os outros vão esquecer até sexta-feira. O botão não está do lado de fora da pessoa. Algumas foram construídas assim: percebem mais, absorvem mais, são atravessadas com mais facilidade pelo que vivem.

Isso tem risco, claro. Quem vive nesse volume sofre mais quando os vínculos terminam, demora mais para reorganizar certas perdas, sente com força o que outros acomodam sem esforço. E existe o outro lado, que quase nunca é mencionado: é a mesma pessoa que ama sem economia, celebra sem reserva, demonstra afeto sem cálculo e constrói memórias que continuam vivas anos depois. O aparelho que capta o chiado é o mesmo que deixa a música chegar inteira.

Talvez o problema não esteja no volume, e sim num mundo que aprendeu a chamar profundidade de exagero. Vivemos cercados de relações rápidas, distração constante e afeto administrado; nesse contexto, qualquer demonstração emocional genuína soa alta demais para o ambiente. Como se sentir muito fosse erro de proporção.

Com o tempo muita gente aprende a botar fone. A intensidade não desaparece — cansa apenas ser tratado o tempo todo como alguém que sente errado, e então ela procura formas mais discretas de existir. Vai para os textos, para os silêncios, para as músicas repetidas de madrugada, para as lembranças que continuam tocando quando todo mundo já seguiu adiante.

E há algo importante em aceitar isso sem tentar consertar. Nem toda característica precisa ser curada. Nem toda profundidade é defeito. Algumas pessoas simplesmente vivem com mais volume do que outras, e não existe botão.

Isso dói às vezes.
Mas também é o que permite que certas coisas, quando realmente importam, sejam vividas por inteiro.

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