A fome que aprendi a chamar de força

Havia um doce em cima da mesa, e eu, menino, morrendo de vontade dele. Sentia o cheiro antes de ver, sentia a água juntar na boca, sentia a mão querendo ir sozinha até lá. E, ainda assim, não comia. Ficava olhando, como quem monta guarda contra o próprio apetite, porque comer seria dar a alguém — não sei bem quem, talvez ninguém, talvez todo mundo — o gosto da minha vontade satisfeita. Preferia a boca seca. Preferia a fome crescendo até doer no estômago, feito uma corda esticada demais, a ceder um centímetro do que havia decidido não ceder.

Ninguém me ensinou essa moeda; eu a cunhei sozinho, ainda pequeno, num quarto onde ninguém via a transação acontecer. E gastei a vida inteira pagando com ela tudo o que sentia. Quero, mas não peço. Desejo, mas escondo o desejo atrás dos dentes. Sofro, mas nego o sofrimento com a mesma cara que uso para negar fome — porque mostrar seria abrir uma porta, e pela porta aberta, eu aprendi cedo, sempre entra alguém disposto a usar o que encontra lá dentro. Melhor emperrar a fechadura. Melhor guardar a chave onde nem eu mesmo lembre.

Cresci, e a rigidez cresceu comigo — só trocou de roupa, como criança que troca de casaco mas continua com o mesmo frio por dentro. Hoje não é mais o doce em cima da mesa. É um homem que trai e depois diz que ama; é a palavra dele pousando no ar como pousa uma mosca, sem peso, sem lugar para ficar. E eu, diante disso, com a mesma fome antiga de acreditar, recuso — recuso o abraço, recuso a promessa, recuso até o alívio que aceitar me daria. Não porque não queira. Quero, e é isso que ninguém entende. Ceder, para mim, sempre pareceu derrota, mesmo quando o que se cede é só a permissão de ser feliz.

Há quem chame isso de força, e por um bom tempo eu também chamei. Força é o que sustenta uma casa contra o vento; isso aqui é mais parecido com uma porta emperrada, que nem o dono consegue abrir sozinho, por mais que empurre o ombro contra a madeira até doer. Quantas vezes recusei o doce que era, na verdade, meu? Quantas vezes disse não a algo que me pertencia de direito, só para não dar a ninguém a imagem de mim querendo demais? A rigidez protege por um tempo. Depois, ela só tranca.

Talvez a régua que uso contra os outros seja, primeiro, a régua que uso contra mim mesmo — a mesma fita métrica, esticada em duas direções diferentes, mas nascida no mesmo rolo. Talvez eu tenha aprendido, muito antes de qualquer traição, muito antes de qualquer um, que privação era prova de caráter, que negar-se era a forma mais segura de nunca dever nada a ninguém.

Ninguém me disse, na época, que essa mesma prova também é prisão. Ninguém me disse que uma porta emperrada por dentro continua sendo, para quem está do lado de fora, apenas uma porta fechada.

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