O peso de tudo o que eu não digo

Aprendi a engolir. Cansaço do trabalho, aquela reunião em que calaram minha fala no meio; desejo de conhecer lugar novo, um canto qualquer que vi passando numa tela e pensei "um dia"; medo que chega de madrugada sem bater, sentando do meu lado na cama antes de eu nem abrir o olho direito — tudo isso foi morar num cômodo de dentro de mim que eu já não abro pra ninguém. Não que falte gente perguntando, porque às vezes pergunta, e a pergunta fica suspensa no ar, esperando uma resposta que eu escolho não entregar. Aprendi quanto custa responder, e o custo, descobri, sempre pesava mais que o alívio de ter dito.

Conto um incômodo bobo do dia, coisa pequena, e ele volta reformado em culpa que é minha, como se eu tivesse inventado o próprio desconforto só pra encher a paciência de quem escuta. Pergunto, tento achar o ponto exato onde a conversa virou acusação, e a culpa evapora na boca dele como se nunca tivesse sido dita, fumaça que ninguém consegue prender — só que em mim ela não evapora, essa fica, pousa num canto do peito e pesa mais um pouco a cada vez que acontece. Depois de algumas dessas, o corpo aprende sozinho, sem eu decidir nada com a cabeça: fica mais fácil calar do que discutir quem disse o quê.

Então engulo. Viagem que sonho em fazer, engulo, junto com o roteiro que tracei sozinho na cabeça. Coisa que desejo comprar, engulo, sem experimentar nem o gosto de pedir em voz alta. E o resto — o que pesa mais, o que nem cabe contar aqui, o que aparece de madrugada já com nome e rosto — também engulo, sozinho, olhando pro teto no escuro, sem passar pra ninguém o trabalho de me segurar em pé. Aprendi a levar tudo calado, como quem carrega água num balde furado, sabendo que no fim do trajeto vai sobrar pouco, mas carregando do mesmo jeito.

O silêncio tem cara de proteção, e por um tempo até cumpre esse papel: o que eu não falo não pode virar arma contra mim, não pode ser torcido, não pode virar prova de que a culpa, no fim, sempre foi minha. Mas todo silêncio acumulado pesa, pesa de verdade, fisicamente, devagar demais pra reparar dia após dia e rápido demais pra carregar por muito tempo sem ir pro fundo. Balde nenhum aguenta água empilhada pra sempre. Numa hora dessas, o fundo cede.

Escolhi me calar pra não levar outro golpe, achando que aquilo era sabedoria, achando que era força, achando que era a lição que eu tinha finalmente tirado depois de apanhar tanto. Não enxerguei a tempo que eu mesmo estava me machucando todo santo dia, sem testemunha alguma — e que ferida sem testemunha dói do mesmo jeito, só que sem ninguém no mundo pra saber que ela está ali.

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