Há dias em que bastam quinze minutos rolando qualquer rede social para bater uma exaustão difícil de explicar. Não porque aconteceu algo ruim, mas porque tudo é igual. Alguém quer que você vá à praia com ela. Outra quer que você se arrume com ela. Outra quer que você acompanhe a manhã, o treino, o mercado, o café, a gaveta sendo organizada. Nenhuma dessas coisas é errada em si. O estranho é perceber que milhões de pessoas estão produzindo exatamente a mesma coisa ao mesmo tempo, como se a vida inteira tivesse virado uma sequência interminável de pequenas provas de que se está vivo.
Às vezes penso que as redes criaram uma necessidade que antes não existia. Já não basta viver: é preciso registrar, editar, publicar, converter a experiência em algo mastigável. O café deixa de ser café. O passeio deixa de ser passeio. A academia deixa de ser academia. Tudo ganha uma segunda função — servir de matéria-prima para uma plateia que nunca pediu para estar ali.
E o curioso é que boa parte desse conteúdo não está tentando dizer coisa nenhuma. Não há história, não há reflexão, não há ideia. Há presença. Um sinal ligado o tempo todo repetindo: estou aqui, estou fazendo isto, estou vivendo este minuto. O que talvez explique por que tanta gente termina cansada depois de horas de tela. Porque receber informação e acompanhar a existência cotidiana de desconhecidos são duas coisas completamente diferentes.
Talvez a mudança mais esquisita dos últimos anos seja essa: as pessoas virando personagens de si mesmas. Em algum momento deixou de bastar ter uma vida. Passou a existir uma pressão calada para apresentar essa vida de um jeito interessante. E não falo só de influenciador. Isso vazou para todo mundo. Como se cada pessoa precisasse de uma marca própria, uma estética reconhecível, um jeito de continuar existindo dentro de um fluxo que nunca para para respirar.
O resultado é uma internet cada vez mais parecida consigo mesma. As músicas são as mesmas. Os enquadramentos são os mesmos. As trends são as mesmas. As legendas se esforçam para parecer espontâneas exatamente do mesmo jeito. Nunca houve tanta gente produzindo, e nunca houve tanta repetição. Você troca o rosto e o vídeo continua praticamente igual.
E não é falta de gente interessante. Ao contrário: a internet está cheia de gente inteligente, criativa, com histórias que ninguém mais tem. O problema é que os formatos mais recompensados não pedem singularidade. Pedem repetição. Pedem familiaridade. Pedem que o público reconheça na primeira meia-segundo o que está vendo. Quando a lógica funciona assim, todo mundo escorrega para o mesmo molde.
O mais curioso é a fadiga em volta disso tudo. Muita gente reclama das redes e continua produzindo para elas. Continua assistindo ao que não desperta interesse nenhum. Continua seguindo perfis que já não acrescentam nada. Continua publicando porque sumir parece esquisito. Como se todos participassem de um jogo de que já não gostam e do qual ninguém sabe direito como sair.
Talvez por isso eu ache cada vez mais interessante quem ainda guarda algum resto de espontaneidade. Gente que usa a internet sem transformar cada hora da própria vida em espetáculo. Que vai à praia sem convidar milhares de desconhecidos para assistir. Que toma um café sem transformá-lo em cenário. Que consegue viver certas coisas sem a urgência de convertê-las em conteúdo antes que esfriem.
Porque, no fim, uma praia continua sendo apenas uma praia. Um café continua sendo apenas um café. E talvez o mais difícil hoje seja lembrar que nem tudo precisa de testemunha para valer a pena.
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