Desci uma caixa do alto do armário procurando outra coisa. Estava fechada com fita já ressecada, com a poeira acumulada em cima, dessas que a gente muda de casa e leva junto sem abrir. Dentro não havia nada útil — coisa nenhuma que servisse para alguma finalidade adulta. E mesmo assim eu passei a tarde inteira ali, sentado no chão do quarto, com aquilo nas mãos. Algumas das experiências mais bonitas da vida não envolvem descobertas: envolvem reencontros. Não necessariamente com pessoas, mas com partes da gente que pareciam esquecidas em algum lugar do passado. Um livro que volta para as mãos depois de décadas. Um desenho retomado sem compromisso. Uma coleção achada dentro de uma caixa antiga. Um videogame ligado numa tarde qualquer. Um caderno onde alguém volta a escrever depois de anos. Certas paixões não desaparecem — apenas ficam em silêncio tempo suficiente para a gente acreditar que foram embora.
E não foi por acaso que aquela caixa acabou no lugar mais alto. Tudo que não produz resultado vai subindo de prateleira ao longo dos anos: a vida adulta se organiza por trabalho, responsabilidade, conta, meta, compromisso, urgência, e o que existe apenas pelo prazer de existir vai perdendo espaço até virar coisa de guardar. O brincar cede lugar ao produzir. A curiosidade perde terreno para a eficiência. O encantamento é empurrado para depois. Quando alguém percebe, passaram-se anos sem qualquer contato com coisas que um dia foram fundamentais para sua felicidade.
Por isso abrir a caixa é uma coisa tão desproporcional ao seu conteúdo. Não é uma atividade que reaparece: é uma sensação. Volta uma forma específica de olhar o mundo. Volta uma versão de si mesmo que existia antes de tantas cobranças, antes da necessidade constante de ser produtivo, eficiente, funcional. É como encontrar uma fotografia antiga e entender que aquela criança não desapareceu — ela continuou ali dentro, no escuro, esperando alguém subir na cadeira e descer a caixa.
Deve ser por isso que tanta gente sente uma alegria fora de proporção ao voltar a ler determinados livros, assistir desenhos antigos, colecionar objetos, jogar videogame, desenhar, escrever histórias, revisitar interesses de infância. O prazer raramente está só na atividade. O que emociona é perceber que uma parte inteira da própria identidade continua viva, intacta, guardada — e que a distância entre quem se era e quem se tornou diminui por alguns instantes.
Há algo profundamente reconfortante em descobrir que certos amores sobrevivem ao tempo dentro de uma caixa fechada. Eles mudam de forma, ganham camadas, encontram outros significados, e permanecem. Algumas paixões parecem menos ligadas ao que fazemos e mais ligadas a quem somos: atravessam décadas em silêncio, não exigem atenção constante nem presença diária. Apenas aguardam o momento em que a vida desacelera o suficiente para que possam reaparecer.
Talvez crescer não devesse significar subir tudo isso para a prateleira mais alta. A maturidade verdadeira talvez tenha mais a ver com preservar espaço para a curiosidade, para a imaginação e para o prazer do que com abandoná-los em nome de uma ideia rígida de ser adulto. Nunca foi problema continuar gostando de algo considerado infantil. O problema é viver de forma tão endurecida que nenhuma dessas coisas ainda consiga provocar alegria quando a caixa abre.
No fim, existe uma beleza particular em perceber que nem tudo o que é valioso está adiante, esperando ser encontrado. Algumas das melhores partes da gente ficaram para trás apenas porque seguimos caminhando rápido demais — e continuam lá, guardadas, sem prazo de validade. Poucas experiências são tão reconfortantes quanto reconhecer que aquilo que fazia os olhos brilharem na infância ainda ilumina um dia comum, muitos anos depois, no chão de um quarto, numa tarde em que se estava procurando outra coisa.
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